A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E DESAVERGONH...

By Gregório de Matos Guerra

Puta Andresona, eu pecador te aviso,

que o que amor te tiver, não terá siso;

tu te finges não ser senão honrada

e nunca vi mentira mais provada:

porque de mui metida, e atrevida

te vieste a sair com ser saída;

mas quando de ti, Puta, não cuidara,

fazeres tais baratos de tal cara!

Esse vaso encharcado, qual Danúbio

dá a crer, que és puta inda antes do dilúvio:

tão velha puta és, que ser podias

Eva das putas, mãe das putarias,

e por puta antiquíssima puderas

dar idade às idades, e era às eras;

e havendo feito putarias artas,

inda hoje dás a crer, que te não fartas.

Entram na tua casa a seus contratos

Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos

porque é tua vileza tão notória,

que entre os homens não achas mais que escória:

a todos esses guapos dás a língua,

e por muito que dês não te faz míngua:

antes és linguaraz, e a mim me espanta,

que dando a todos, tenhas língua tanta.

Mas isso te nasceu, puta Andresona,

de seres puta vil, puta fragona:

que o falar da janela, e da varanda,

só se achará em putas de quitanda.

Cal-te, que a puta grave, qual donzela,

geme na cama e cala na janela:

mete a língua no cu, e havendo míngua

quando deres ao cu darás à língua.

Pois te deixas calar sempre por baixo,

e lá para calar-te tens o encaixe,

cal-te um dia por cima atroadora,

que já se enfada quem na rua mora:

e diz até uma Preta, e mais não erra,

que a ovelha ruim é, a que berra;

cal-te Andresona, que de me aturdires,

tomei eu a ocasião de hoje me ouvires.