A aurora e a tarde
Olha, Elvira, como é belo
o despertar da manhã!
Escuta o idílio singelo
desta hora meiga e louçã!
Aquela nuvem mimosa
que se desdobra no Céu,
é d’aurora o branco véu
que o sol já tinge de rosa.
Vê como brilham na relva
mil penas que a luz matiza!
Como s’espalha na brisa
o grato aroma da selva!
Aquela gota brilhante
que se desprende da flor,
é do teu cândido amor
doce lágrima inconstante.
Vem ver da rosa singela
abrir-se o botão gentil,
— que grato aroma, sutil
s’escapa do seio dela!
Escuta o sussurro brando
do beija-flor namorado,
que vai às flores do prado
amor, amor, segredando!
Despertam os passarinhos:
vem ouvi-los gorjear!
Vem vê-los a saltitar
pelos floridos raminhos!
Olha, Elvira, como é belo
o despertar da manhã!
escuta o idílio singelo
est’hora meiga e louçã!
Mas, Elvira, escuta ainda:
— tu que amas tanto a poesia,
dize-me — a aurora é mais linda
que o findar de um belo dia? —
Fita os olhos no horizonte...
vê a luz que vai findar,
aquela vista do monte
que se retrata no mar!
Vê do Céu as lindas cores,
o verde que o campo esmalta,
olha as casinhas... as flores,
tudo no mar se retrata!
Escuta o doce gemer
das mansas ondas na praia:
olha o sol a s’esconder...
como a vida que desmaia!
Ouve a fonte que suspira
à sombra dos salgueirais;
como a saudosa lira
vibrando doridos ais!
Mais, mais rescendem as flores...
geme a rola no silvedo,
a brisa suspira amores
entre as franças do arvoredo.
Desmaiam cores no Céu,
calam-se os ecos da terra;
as sombras d’escuro véu
já se desdobram na serra.
Elvira, a noite já desce;
toca o sino — Ave-Maria!
Eleva aos Céus doce prece
em meio desta poesia!