A aurora e a tarde

By Delminda Silveira de Sousa

Olha, Elvira, como é belo

o despertar da manhã!

Escuta o idílio singelo

desta hora meiga e louçã!

Aquela nuvem mimosa

que se desdobra no Céu,

é d’aurora o branco véu

que o sol já tinge de rosa.

Vê como brilham na relva

mil penas que a luz matiza!

Como s’espalha na brisa

o grato aroma da selva!

Aquela gota brilhante

que se desprende da flor,

é do teu cândido amor

doce lágrima inconstante.

Vem ver da rosa singela

abrir-se o botão gentil,

— que grato aroma, sutil

s’escapa do seio dela!

Escuta o sussurro brando

do beija-flor namorado,

que vai às flores do prado

amor, amor, segredando!

Despertam os passarinhos:

vem ouvi-los gorjear!

Vem vê-los a saltitar

pelos floridos raminhos!

Olha, Elvira, como é belo

o despertar da manhã!

escuta o idílio singelo

est’hora meiga e louçã!

Mas, Elvira, escuta ainda:

— tu que amas tanto a poesia,

dize-me — a aurora é mais linda

que o findar de um belo dia? —

Fita os olhos no horizonte...

vê a luz que vai findar,

aquela vista do monte

que se retrata no mar!

Vê do Céu as lindas cores,

o verde que o campo esmalta,

olha as casinhas... as flores,

tudo no mar se retrata!

Escuta o doce gemer

das mansas ondas na praia:

olha o sol a s’esconder...

como a vida que desmaia!

Ouve a fonte que suspira

à sombra dos salgueirais;

como a saudosa lira

vibrando doridos ais!

Mais, mais rescendem as flores...

geme a rola no silvedo,

a brisa suspira amores

entre as franças do arvoredo.

Desmaiam cores no Céu,

calam-se os ecos da terra;

as sombras d’escuro véu

já se desdobram na serra.

Elvira, a noite já desce;

toca o sino — Ave-Maria!

Eleva aos Céus doce prece

em meio desta poesia!