A AVÓ DESTA MESMA MÔÇA, A QUEM MANDOU OS SONHOS, QUE ELA DEU AO POETA, COMO DICE...

By Gregório de Matos Guerra

Senhora Velha: se é dado,

a quem é vosso valido,

aplicares-lhe o sentido,

ouvi vosso apaixonado:

dá-me notável cuidado

saber, como ides urdindo

um, e outro sonho lindo,

porque me atrevo a dizer,

que para tais sonhos ter,

sempre estivera dormindo.

Diz um português rifão

nascido em tempos dos monhos,

que ninguém creia em seus sonhos,

porque sonhos sonhos são:

eu sigo outra opinião,

dês que os vossos sonhos vi,

e tão firmemente os cri;

que se os tenho por verdade,

é porque na realidade

os masquei, e os engoli.

Eu dormira todo o dia,

e a vida desperdiçando

sempre estivera sonhando,

só por sonhar, que os comia:

o sonhar é fantesia

d’alma, que quando descansa

não larga a sua lavrança,

o seu trabalho, e tarefa,

e como a minha alma é trefa,

no que lida, é na papança.

Não são sonhos enfadonhos

sonhos tão adocicados,

que em vez de sonhos sonhados

são sempre engolidos sonhos:

outros sonhos há medonhos,

que um homem deixam turbado

depois do sono acordado:

os vossos tal não farão;

e ao menos me deixaram

mel pelos beiços untados.