A AVÓ DESTA MESMA MÔÇA, A QUEM MANDOU OS SONHOS, QUE ELA DEU AO POETA, COMO DICE...
Senhora Velha: se é dado,
a quem é vosso valido,
aplicares-lhe o sentido,
ouvi vosso apaixonado:
dá-me notável cuidado
saber, como ides urdindo
um, e outro sonho lindo,
porque me atrevo a dizer,
que para tais sonhos ter,
sempre estivera dormindo.
Diz um português rifão
nascido em tempos dos monhos,
que ninguém creia em seus sonhos,
porque sonhos sonhos são:
eu sigo outra opinião,
dês que os vossos sonhos vi,
e tão firmemente os cri;
que se os tenho por verdade,
é porque na realidade
os masquei, e os engoli.
Eu dormira todo o dia,
e a vida desperdiçando
sempre estivera sonhando,
só por sonhar, que os comia:
o sonhar é fantesia
d’alma, que quando descansa
não larga a sua lavrança,
o seu trabalho, e tarefa,
e como a minha alma é trefa,
no que lida, é na papança.
Não são sonhos enfadonhos
sonhos tão adocicados,
que em vez de sonhos sonhados
são sempre engolidos sonhos:
outros sonhos há medonhos,
que um homem deixam turbado
depois do sono acordado:
os vossos tal não farão;
e ao menos me deixaram
mel pelos beiços untados.