A BITANCOR, QUE NA PRIMEYRA VEZ QUE COM ELLA CONVERSOU O POETA, LOGO FOI ADMITTI...
Querendo obrigar-me Amor
depois de tanta afeição
me pôs na palma da mão
a discreta Bitancor:
agradeci-lhe o favor,
e querendo-o pôr nas palmas,
agonizando entre calmas
de amor minhas altivezes,
lhe rendi a alma mil vezes
porque não tive mil almas.
Multipliquei de artifício
o rendimento, e amor,
porque uma alma a seu candor
era curto sacrifício:
e ela destra no exercício
de amor, e seu rendimento,
com gosto, e contentamento
me agradeceu por então
medir eu minha afeição
pelo seu merecimento.
Que lhe caísse eu em graça,
seus olhos o não desdizem,
porque sempre os olhos dizem,
o que dentro n’alma passa:
graças a Amor, que a desgraça
não veio empecer-me aqui,
porque muitas vezes vi,
que enamorado, e rendido
por perder o merecido
até o perder-me perdi.
Ela me dá por perdido,
e está disposta a querer-me,
cum que não perco o perder-me,
pois já a tenho merecido:
um amor tão bem sortido
por mãos de uma divindade:
este amor em realidade,
que não trazer-me um ninguém
da fortuna no vaivém
do tempo na eternidade.