A BITANCOR, QUE NA PRIMEYRA VEZ QUE COM ELLA CONVERSOU O POETA, LOGO FOI ADMITTI...

By Gregório de Matos Guerra

Querendo obrigar-me Amor

depois de tanta afeição

me pôs na palma da mão

a discreta Bitancor:

agradeci-lhe o favor,

e querendo-o pôr nas palmas,

agonizando entre calmas

de amor minhas altivezes,

lhe rendi a alma mil vezes

porque não tive mil almas.

Multipliquei de artifício

o rendimento, e amor,

porque uma alma a seu candor

era curto sacrifício:

e ela destra no exercício

de amor, e seu rendimento,

com gosto, e contentamento

me agradeceu por então

medir eu minha afeição

pelo seu merecimento.

Que lhe caísse eu em graça,

seus olhos o não desdizem,

porque sempre os olhos dizem,

o que dentro n’alma passa:

graças a Amor, que a desgraça

não veio empecer-me aqui,

porque muitas vezes vi,

que enamorado, e rendido

por perder o merecido

até o perder-me perdi.

Ela me dá por perdido,

e está disposta a querer-me,

cum que não perco o perder-me,

pois já a tenho merecido:

um amor tão bem sortido

por mãos de uma divindade:

este amor em realidade,

que não trazer-me um ninguém

da fortuna no vaivém

do tempo na eternidade.