A bolota e a abóbora

By Delminda Silveira de Sousa

O que Deus faz é bom; e para tal provar,

Sem ser preciso ir do universo ao fim,

Temos a abóbora vulgar.

Um rústico dizia assim:

— “Ora, tamanho fruto em ramo tão delgado!

Das cousas o Criador, em que meditaria,

Quando a esse baraço um fruto tal prendia?

Eu, por mim, tê-lo-ia pendurado

A um grande carvalho; o que, seria

O negócio mais belo e acertado:

Tal árvore, tal fruto, — eis o ditado.

Garo, que pena foi — se fosses do conselho

D’Aquele de quem fala o cura ao Evangelho,

Tudo fora melhor; ora, isto, por exemplo:

Bolota, que menor que um dedo é,

Por que nesse baraço não se vê?...

Deus se menosprezou! Quando contemplo

Esses frutos assim, mal colocados, oh! —

Parece-me que houve um quiproquó!”

E uma tal reflexão confunde o nosso homem;

— “Não se pode dormir se a mente tem trabalho;”

Disse Garo, e deixando ideias que o consomem,

Deitou-se, e adormeceu à sombra dum carvalho.

Uma bolota, então, sobre o nariz lhe cai;

Garo desperta, e a mão o rosto vai palpar;

Preso à barba inda encontra o fruto, porém, — ai;

O magoado nariz deu-lhe um novo pensar!

— “Sangue! — exclama, ai de mim! desgraçado,

Se d’árvore caísse um corpo mais pesado!

Uma abóbora... que azar!...

Deus não o quis... compreendo! — ele teve razão!”

E bendizendo o Criador, então,

Garo voltou ao lar.