A Capela da Piedade
Envelheceu nas labutas
Da vida; nas grandes lutas
Do trabalho, dia e noite,
Sempre teve o frio açoite.
Dos vendavais da desgraça
Que sobre as cabeças passa
Sem lhes permitir sossego,
E nem lhes dar o aconchego
Que tanto amaina e consola,
Como nas mãos uma esmola...
Em rapaz, viu-se sem pai;
E, um ano depois, lhe cai
Outra orfandade, de sorte
Que ele quis chamar a morte
Para livrá-lo do mundo
Que lhe era negro e profundo
Em saudades doentias;
Em pesadas nostalgias...
Mas recuou, sem coragem,
Por lhe perceber a imagem
Sempre vaga e sempre triste
Como nenhuma outra existe.
Receando, do cemitério,
Todo o trágico mistério;
E toda a velada vida
Do Além, sempre indefinida.
Ficou, então, no caminho
Do mundo; e, agora, velhinho.
Recordava o que sofrera
Nesta vida passageira;
Passageira de tormentos
Em todos os seus momentos...
E passageira, bem certo,
Por lhe ser o fim incerto.
Recordava a juventude
Dormindo num ataúde;
Vendo-a dentro da mortalha
Que a mão do destino talha.
Recordava a mocidade
Que é força e vivacidade,
E é Lótus que, na existência,
Só tem uma florescência.
Passou-a, britando a pedra,
Num trabalho que não medra;
Não temendo o sol do estio,
Nem o fogo, e o vento frio.
Fez-se também carpinteiro,
Trabalhando o ano inteiro.
Construiu casas formosas,
Por entre tufos de rosas.
Construiu uma num monte,
De onde se via o horizonte;
E outra, junto de um riacho
Que, à tarde, lembrava um facho...
E, em filas, nas praias francas,
Construiu casinhas brancas.
E construiu, nas ilhotas,
Outras mais, onde as gaivotas
Iam, meigas e serenas,
Sacudir as suas penas.
E construiu, na montanha
Da vila, uma casa estranha
Em belezas singulares,
Que dava encanto aos olhares,
Porque, quando a lua vinha
Surgindo da onda marinha,
Logo a sua luz tão bela
Lhe entrava pela janela...
E quem, de longe, a fitava,
Alegremente afirmava
Haver outra luz estranha
Na casinha da montanha.
Entre lírios e entre goivos
Construiu casas para noivos.
Para uma velha aleijada
Construiu uma na estrada.
Dando-lhe as tábuas e as telhas,
E um lugar para as abelhas.
Para um pobre lazarento
Construiu outra, num momento.
Entretanto nunca, nunca
Construiu uma espelunca
Onde os anos, acabasse,
Quando a morte lhe chegasse...
E ainda agora, bem velhinho,
Construía, junto ao caminho
(Sua última vontade)
A Capela da Piedade.
Junto da qual, fatigado,
Viu-se, no entanto, parado.
Amortecidos os braços.
Fugindo-lhe o chão aos passos;
Sem, por certo, perceber
Que era ali que ia morrer!...