A Capela da Piedade

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Envelheceu nas labutas

Da vida; nas grandes lutas

Do trabalho, dia e noite,

Sempre teve o frio açoite.

Dos vendavais da desgraça

Que sobre as cabeças passa

Sem lhes permitir sossego,

E nem lhes dar o aconchego

Que tanto amaina e consola,

Como nas mãos uma esmola...

Em rapaz, viu-se sem pai;

E, um ano depois, lhe cai

Outra orfandade, de sorte

Que ele quis chamar a morte

Para livrá-lo do mundo

Que lhe era negro e profundo

Em saudades doentias;

Em pesadas nostalgias...

Mas recuou, sem coragem,

Por lhe perceber a imagem

Sempre vaga e sempre triste

Como nenhuma outra existe.

Receando, do cemitério,

Todo o trágico mistério;

E toda a velada vida

Do Além, sempre indefinida.

Ficou, então, no caminho

Do mundo; e, agora, velhinho.

Recordava o que sofrera

Nesta vida passageira;

Passageira de tormentos

Em todos os seus momentos...

E passageira, bem certo,

Por lhe ser o fim incerto.

Recordava a juventude

Dormindo num ataúde;

Vendo-a dentro da mortalha

Que a mão do destino talha.

Recordava a mocidade

Que é força e vivacidade,

E é Lótus que, na existência,

Só tem uma florescência.

Passou-a, britando a pedra,

Num trabalho que não medra;

Não temendo o sol do estio,

Nem o fogo, e o vento frio.

Fez-se também carpinteiro,

Trabalhando o ano inteiro.

Construiu casas formosas,

Por entre tufos de rosas.

Construiu uma num monte,

De onde se via o horizonte;

E outra, junto de um riacho

Que, à tarde, lembrava um facho...

E, em filas, nas praias francas,

Construiu casinhas brancas.

E construiu, nas ilhotas,

Outras mais, onde as gaivotas

Iam, meigas e serenas,

Sacudir as suas penas.

E construiu, na montanha

Da vila, uma casa estranha

Em belezas singulares,

Que dava encanto aos olhares,

Porque, quando a lua vinha

Surgindo da onda marinha,

Logo a sua luz tão bela

Lhe entrava pela janela...

E quem, de longe, a fitava,

Alegremente afirmava

Haver outra luz estranha

Na casinha da montanha.

Entre lírios e entre goivos

Construiu casas para noivos.

Para uma velha aleijada

Construiu uma na estrada.

Dando-lhe as tábuas e as telhas,

E um lugar para as abelhas.

Para um pobre lazarento

Construiu outra, num momento.

Entretanto nunca, nunca

Construiu uma espelunca

Onde os anos, acabasse,

Quando a morte lhe chegasse...

E ainda agora, bem velhinho,

Construía, junto ao caminho

(Sua última vontade)

A Capela da Piedade.

Junto da qual, fatigado,

Viu-se, no entanto, parado.

Amortecidos os braços.

Fugindo-lhe o chão aos passos;

Sem, por certo, perceber

Que era ali que ia morrer!...