A caridade

By Delminda Silveira de Sousa

Triste noite hiemal nos campos estendia

o gélido lençol que a relva cresta e mata;

não brilha em Céu de anil a nuvem cor de prata

beijada do luar das noites de poesia.

Não ferem docemente as harpas invisíveis

da virgem solidão as brisas carinhosas;

nem ondas de perfume entornam frescas rosas

abertas ao frescor das alvas aprazíveis.

Nem um astro no Céu!... Na terra e sobre as águas,

somente o véu da morte em gélida brancura!

— Horror e solidão! — por cantos de ternura,

o vento a sibilar d’encontro às duras fragas.

De mísera choupana o colmo arrebatado,

num ímpeto infernal, arranca o furacão,

e o pobre, sobre a enxerga, às iras do bulcão,

presenta amortecido, o corpo enregelado!

No lar, sem pão, sem luz, entram, as agonias

da dor, que o corpo abate e a alma dilacera;

no entanto o rico dorme, e sonha, e goza, e espera

mil gozos ideais de loucas fantasias!

O ouro da avareza, o vil tesouro seu

que o flácido tapiz d’alcova dissimula,

jamais do pobre à mão que o crime não macula

fecundo deslizou, qual pérola do Céu!

E o pobre agonizava... e o rico, entanto, sonha!...

Ai! dorme a mesquinhez, mas vela a Caridade,

e a Providência vê, no ermo e na cidade,

a límpida virtude, e o crime que envergonha.

A aurora borda o Céu d’opalas e safiras,

o gelo da campina o sol deliu, piedoso;

e o pobre achou conforto, o seio carinhoso,

que tu, ó Caridade, aos males seus abriras!

E ao ímpio opulento, oh! Deus, teu Céu, irado,

terrível despedira o raio da justiça,

e sobre o ouro vil da ínfima cobiça,

o rico avaro e mau caiu desamparado!

No entanto, a Caridade, a excelsa, meiga aurora

que a noite do sofrer aclara radiosa,

lá, junto à fria cruz, prostrada, lacrimosa,

do réprobo o perdão ainda aos Céus implora!