A caridade
Triste noite hiemal nos campos estendia
o gélido lençol que a relva cresta e mata;
não brilha em Céu de anil a nuvem cor de prata
beijada do luar das noites de poesia.
Não ferem docemente as harpas invisíveis
da virgem solidão as brisas carinhosas;
nem ondas de perfume entornam frescas rosas
abertas ao frescor das alvas aprazíveis.
Nem um astro no Céu!... Na terra e sobre as águas,
somente o véu da morte em gélida brancura!
— Horror e solidão! — por cantos de ternura,
o vento a sibilar d’encontro às duras fragas.
De mísera choupana o colmo arrebatado,
num ímpeto infernal, arranca o furacão,
e o pobre, sobre a enxerga, às iras do bulcão,
presenta amortecido, o corpo enregelado!
No lar, sem pão, sem luz, entram, as agonias
da dor, que o corpo abate e a alma dilacera;
no entanto o rico dorme, e sonha, e goza, e espera
mil gozos ideais de loucas fantasias!
O ouro da avareza, o vil tesouro seu
que o flácido tapiz d’alcova dissimula,
jamais do pobre à mão que o crime não macula
fecundo deslizou, qual pérola do Céu!
E o pobre agonizava... e o rico, entanto, sonha!...
Ai! dorme a mesquinhez, mas vela a Caridade,
e a Providência vê, no ermo e na cidade,
a límpida virtude, e o crime que envergonha.
A aurora borda o Céu d’opalas e safiras,
o gelo da campina o sol deliu, piedoso;
e o pobre achou conforto, o seio carinhoso,
que tu, ó Caridade, aos males seus abriras!
E ao ímpio opulento, oh! Deus, teu Céu, irado,
terrível despedira o raio da justiça,
e sobre o ouro vil da ínfima cobiça,
o rico avaro e mau caiu desamparado!
No entanto, a Caridade, a excelsa, meiga aurora
que a noite do sofrer aclara radiosa,
lá, junto à fria cruz, prostrada, lacrimosa,
do réprobo o perdão ainda aos Céus implora!