A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE P...

By Gregório de Matos Guerra

No dia. em que a Igreja dá

pão por Deus à cristandade,

tenho por má caridade

dares vós, Freira, um cará:

se foi remoque, oxalá,

que vos dêem a mesma esmola,

que não há mulher tão tola,

que por mais honesta, e grave,

não queira levar o cabe,

se pôs descoberta a bola.

Descobristes a intenção,

e o desejo revelastes,

quando o cará encaixastes,

a quem vos pedia o pão:

como quem diz: meu Irmão,

se quem toma, se obrigou

a pagar, o que tomou,

vós obrigado a pagar-me,

ficais ensinado a dar-me

o cará, que vos eu dou.

Levado desta sequela

promete o mancebo já

de dar-vos o seu cará,

porque fique ela por ela:

se consiste a vossa estrela

em dar, o que heis de tomar,

cará não há de faltar,

porque o Moço não repara

em levar a cópia, para

o original vos tornar.

Se assim for, que assim será,

fareis um negócio raro,

porque um cará não é caro

se por um outro se dá:

e pois o quer pagar já

sem detença, e com cuidado,

se o quereis ver bem pagado,

há de ser com tal partido,

que por um cará cozido

leveis o meu, que anda assado.

Vós pois me haveis de dizer

(assentado este negócio)

se quereis fazer socrócio,

porque comigo há de ser:

de carás heis de cozer

uma boa caldeirada,

e de toda esta tachada

tal conserva heis de tomar,

que vos venhais a pagar

do cará co caralhada.