A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE P...
No dia. em que a Igreja dá
pão por Deus à cristandade,
tenho por má caridade
dares vós, Freira, um cará:
se foi remoque, oxalá,
que vos dêem a mesma esmola,
que não há mulher tão tola,
que por mais honesta, e grave,
não queira levar o cabe,
se pôs descoberta a bola.
Descobristes a intenção,
e o desejo revelastes,
quando o cará encaixastes,
a quem vos pedia o pão:
como quem diz: meu Irmão,
se quem toma, se obrigou
a pagar, o que tomou,
vós obrigado a pagar-me,
ficais ensinado a dar-me
o cará, que vos eu dou.
Levado desta sequela
promete o mancebo já
de dar-vos o seu cará,
porque fique ela por ela:
se consiste a vossa estrela
em dar, o que heis de tomar,
cará não há de faltar,
porque o Moço não repara
em levar a cópia, para
o original vos tornar.
Se assim for, que assim será,
fareis um negócio raro,
porque um cará não é caro
se por um outro se dá:
e pois o quer pagar já
sem detença, e com cuidado,
se o quereis ver bem pagado,
há de ser com tal partido,
que por um cará cozido
leveis o meu, que anda assado.
Vós pois me haveis de dizer
(assentado este negócio)
se quereis fazer socrócio,
porque comigo há de ser:
de carás heis de cozer
uma boa caldeirada,
e de toda esta tachada
tal conserva heis de tomar,
que vos venhais a pagar
do cará co caralhada.