A CERTO HOMEM DE DISTINÇÃO QUE SE COSTUMAVA EMBEBEDAR E QUEIMANDO-SE-LHE A CASA ...

By Gregório de Matos Guerra

O vício da Sodomia

em Gomorra, e em Sodoma

Lavrava como carcoma,

e como traça roía:

quis Deus arrancar num dia,

e arrancou de um lanço só,

porque reduzindo em pó

a cidade, e sua gente,

livrou do incêndio somente

toda a família de Lot.

Segundo Lot ao burlesco

temos hoje em Andrezão,

como sodomita não,

como bebedor tudesco:

estava dormindo ao fresco,

e roncando a seu prazer

para a cachaça cozer,

e por mais que a palhoça arda,

Deus lhe defende, e resguarda,

ele, família, e mulher.

O vulgo, que é todo asnal,

tem este caso horroroso

por prodígio milagroso,

sendo cousa natural:

porque tomado um sendal,

ou qualquer lenço tomado,

e em jeribita ensopado,

se o fogo se lhe puser,

a jeribita há de arder,

sem ser o lenço queimado.

Assim o nosso Andrezão

de jeribita atacado

não podia ser queimado

num fio do casacão:

a palhoça ardeu então

porém a pele maldita

seria cousa esquisita,

que pudesse em fogo arder,

porque a pele vinha a ser

o lenço da jeribita.

E suposta esta livrança

entre Sodoma, e Tudesco

ou há grande parentesco,

ou mui grande semelhança:

quem quiser com confiança

entrar no fogo veemente,

escuse o ser inocente,

como os Moços do Salmista,

trate de ser flautista,

e beba muita aguardente.

Lá no forno do Pombal

Vila do Conde Valido,

quando está mui acendido

entra (prodígio fatal!)

um vilão de ânimo tal,

que dentro vira a fogaça,

com que a todo o povo embaça,

sem o mistério alcançar,

e eu agora venho a dar,

que vai cheio de vinhaça.

E pois o nosso Andrezão

leva o fogo de vencida,

para toda a sua vida

temos nele um borrachão:

e como é mui asneirão,

e em tudo tão material,

fará um discurso tal,

que a beber, e mais beber

há de escapar, e viver

no dilúvio universal.

Engana-se o asneirão,

porque no final juízo

há de acabar, que é preciso,

vinho, vide, cepa, e chão:

tudo há de acabar então,

e quando ache o Brichote

escondido algum pipote,

como é tão geral a mágoa,

porque morra, dar-lhe-ão água,

que é veneno de um vinhote.