A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA, QUE SE DIZIA SER TAL CO...
Este, que de Nise conto,
ouçam, que é bem raro caso,
pois dizem, calça seu vaso
(com ser tão grande) um só ponto:
casou com Fábio, que é tonto,
e eu folgo por vida minha,
porque é cousa bem sabida
que andavam com grão cuidado
o Moço por ela assado,
e ela por ele cozida.
Por dar alívio a seu peito
no mar de amor, lhe convinha
a Fábio passar a linha,
porém não passar o estreito:
mas não haverá conceito,
que repare a Fábio amante,
pois hoje a vela constante
(quando em deleites se arrulha)
o rumo serve de agulha
como astuto navegante.
Mais direito do que um fuso
Fábio com manha seleta
no vaso por linha reta
lhe encaixou o membro obtuso:
mas de dizer não me escuso,
que nisto tinha interesse,
pois caso estranho parece,
e coisa rara que Fábio
sendo Astrólogo tão sábio
o Virgo não conhecesse.
Andou prudente, e alentado
nesta empresa, a que aspirava
pois de Nise o vaso estava
com linhas fortificado:
avançou-o denodado,
donde claramente infiro
(não cuide alguém, que isto é conto)
que a Moça lhe pôs o ponto?
para ele fazer o tiro.
Em casar com Nise bela
nada Fábio se desonra,
que nisto de pontos d’honra
ninguém sabe mais do que ela:
e assim com gentil cautela
que ambos ganharam (suspeito),
a vida num mesmo efeito,
sem que pareça tolice,
com os pontos de honra Nice,
Fábio com os de direito.
Se Fábio ocioso alguma hora
de Nise, por ser sandeu
as linhas tristes torceu
alegre as destorce agora:
embainhe o membro embora
no vaso, pois nisto acerta;
mas é bom, que esteja alerta,
não se fira nesta bulha
porque bainha de agulha
é força, que esteja aberta.
Bem é, liberal se ostente
em casar-se Nise bela,
dando-se aos mais donzela
pois dando-se a muitos ela
hoje um recebe somente:
ter-me-ão por maldizente,
mas não tenho a culpa eu,
que sou mui cativo seu:
a verdade aqui só conto,
sem lhe acrescentar um ponto
dos que ela no vaso deu.