A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA, QUE SE DIZIA SER TAL CO...

By Gregório de Matos Guerra

Este, que de Nise conto,

ouçam, que é bem raro caso,

pois dizem, calça seu vaso

(com ser tão grande) um só ponto:

casou com Fábio, que é tonto,

e eu folgo por vida minha,

porque é cousa bem sabida

que andavam com grão cuidado

o Moço por ela assado,

e ela por ele cozida.

Por dar alívio a seu peito

no mar de amor, lhe convinha

a Fábio passar a linha,

porém não passar o estreito:

mas não haverá conceito,

que repare a Fábio amante,

pois hoje a vela constante

(quando em deleites se arrulha)

o rumo serve de agulha

como astuto navegante.

Mais direito do que um fuso

Fábio com manha seleta

no vaso por linha reta

lhe encaixou o membro obtuso:

mas de dizer não me escuso,

que nisto tinha interesse,

pois caso estranho parece,

e coisa rara que Fábio

sendo Astrólogo tão sábio

o Virgo não conhecesse.

Andou prudente, e alentado

nesta empresa, a que aspirava

pois de Nise o vaso estava

com linhas fortificado:

avançou-o denodado,

donde claramente infiro

(não cuide alguém, que isto é conto)

que a Moça lhe pôs o ponto?

para ele fazer o tiro.

Em casar com Nise bela

nada Fábio se desonra,

que nisto de pontos d’honra

ninguém sabe mais do que ela:

e assim com gentil cautela

que ambos ganharam (suspeito),

a vida num mesmo efeito,

sem que pareça tolice,

com os pontos de honra Nice,

Fábio com os de direito.

Se Fábio ocioso alguma hora

de Nise, por ser sandeu

as linhas tristes torceu

alegre as destorce agora:

embainhe o membro embora

no vaso, pois nisto acerta;

mas é bom, que esteja alerta,

não se fira nesta bulha

porque bainha de agulha

é força, que esteja aberta.

Bem é, liberal se ostente

em casar-se Nise bela,

dando-se aos mais donzela

pois dando-se a muitos ela

hoje um recebe somente:

ter-me-ão por maldizente,

mas não tenho a culpa eu,

que sou mui cativo seu:

a verdade aqui só conto,

sem lhe acrescentar um ponto

dos que ela no vaso deu.