A CERTO TENENTE CHAMADO O SURDO INSIGNE VENDELHÃO, E ATRAVESSADOR VENDENDO HUNS PAYOS POR COUSA MUY SELECTA QUANDO OS MAIS DELLES ESTAVAM PODRES.

By Gregório de Matos Guerra

Porque a fama vos celebre,

meu Tenente mercador,

dizem em vosso louvor,

que vendeis gato por lebre:

temo, que o trato vos quebre,

e temo, que vos quebreis,

quando as bocas não tapeis,

que dizem, por onde andais,

o modo, com que comprais,

e o modo, com que vendeis.

Se vós a boca vazia

tapásseis do nosso Alferes,

não disseram más mulheres

mal da vossa mercancia:

que o Alferes a porfia

anda estrugindo os quartéis

com dous mil aqui-d’El-Reis,

porque sois tão mau cristão,

que o que vos custa um tostão,

vendeis por duzentos réis.

Se os paios, que vós vendeis,

são do castelo de vide,

guardai-lhe embora a pevide,

mas co não a semeeis:

porque se esta terra encheis

de tão pobre sementeira,

sobre perder a queijeira,

em que ganhais quatro réis,

virão os Almotacéis

meter-vos na Leoneira.

Se os paios tão podres são,

quando vo-los pede alguém,

quando os vendeis muito bem,

como é cada qual tão são?

o certo é, meu Irmão,

que nos trazeis enganados,

pois sois na verdade tal,

que gabando-os sem sal

no-los vendeis bem salgados.

Meu Tenente, e meu Senhor,

vós mereceis justamente

comer praça de Tenente,

porque sois bom tenedor:

por força, nem por amor,

por jeito, nem por violência

pôde nunca a diligência

do Alferes vosso parceiro

tirar do vosso fumeiro

um fole de pestilência.

Por esta terra se conta,

que por preços tão diversos

destes os paios preversos,

que nem vós lhe dais na conta:

um contador vos desconta

pobres mais de nove, ou dez,

dados de graça nem três:

mas isto é dito de graça,

pois vem revendido em praça,

quanto dais sem interes.

Sobre a partida dos queijos,

que vós intentais comprar,

me dizem, que heis de ganhar

mais de quatro percevejos:

creio, que destes sobejos

tirareis ganância boa,

com que honreis casa, e pessoa;

mas tenho o meu pesarzinho

de ser mercador ratinho,

quem é filho de Lisboa.

Quanto ao outro negocinho

da frasqueira rosa soles,

que intentais vender aos goles

a frasquinho por frasquinho:

tirareis tal coscorinho

deles, como de um crisol,

que no sagrado arrebol

do convento heis de meter

uma filha, que há de ser

Madre Soror Rosa Sol.

Enquanto aos demais contratos,

para que o dito não quebre,

ou vendeis gato por lebre,

ou vendeis lebres por gatos:

guardai-vos de mentecaptos,

que dirão já boto o dente

com mofina escarnecente

depois de sorver aos goles

paios, queijos, rosa soles

má cousa, Senhor Tenente.