À CONDESSA DE TAROUCA, NA OCASIÃO DO SEU CASAMENTO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, o Forte da Estrela,

Chorando o bem que perdeu,

Das suas justas saudades

Por portador me escolheu;

Quis que eu viesse contá-las

Ao som desta rouca lira,

De longos anos afeita

A acompanhar quem suspira;

Não falo nos ternos pais;

Neles a alta Jerarquia

Tempera saudoso pranto

Com o pranto da alegria;

Ao nome dos seus Passados

Planos caminhos acharam,

Unindo ao sangue de heróis

O sangue de heróis que herdaram;

Não falo no amável Conde;

Esse não faz compaixão;

Tem seges, tem bons cavalos,

Tem o remédio na mão;

Sobre rápidos ginetes,

Quebrando a dura calçada,

Com o Francisco a reboque,

Andará sempre na estrada;

Também das caras irmãs

Não venho as mágoas pintar;

Co’a terna mãe muitas vezes

As virão desafogar;

Falo da triste família,

Que em amorosa mania

Acusa o céu, que vos deu

Formosura, e fidalguia;

Dons, de seu mal causadores;

E que deixam coroado,

Na mais ilustre conquista,

O mais ditoso soldado;

Ralham d’ele a toda hora;

Foi causa do seu tormento;

Elogiam, e praguejam

Seu alto merecimento;

Se é soldado, siga a Guerra,

E as funestas glórias dela;

Ataque milhões de Fortes,

Mas deixe em paz o da Estrela;

Tem figura, tem talentos;

Tem alta estirpe preclara;

Oxalá que assim não fosse,

Ela então o desprezara;”

Mas, Senhores, perdoai-lhes;

Às vezes na grande dor

Falam palavras de raiva

A linguagem de amor;

O Silva, o autômato honrado,

Anda mais abstrato, e mudo;

Põe o doce antes da sopa;

Queima o Café, quebra tudo;

O hirsuto, austero Rodrigues,

Semblante de poucas pazes,

Desafoga a sua dor,

Dando murros nos rapazes;

Vossa aia, de três idades,

Em canto escuro assentada,

Vos manda calado pranto,

Num cobertor abafada.

Outras vezes esquecida

De quanto seu fado é cru,

No queixo ajustando o lenço,

E sobrepondo o bajú:

Ergue ao ar cansados ossos;

E sem temer ventos frios,

Tirando-lhe Amor o peso

Dos gelados pés tardios;

Do bom costume enganada,

E com a usada cautela,

Para dar, e ter, bons dias,

Vos vai abrir a janela;

A janela a desengana;

Renova-lhe a dor no peito;

Chama em vão o vosso nome,

Abraçando um ermo leito.

Do peito das mais criadas

A saudade se não risca,

Desde as aias ralhadoras,

Té a ladina Francisca.

E pois que o sangue de reis,

Pois que a augusta cerimônia,

Bem a pesar das Criadas,

Vos trouxe a Santa Apolônia;

Ide, Senhora, mil vezes

Curar-lhes a fresca chaga;

Seu pranto é filho de amor,

E amor com amor se paga;

Na rica, airosa berlinda,

Dando ao digno esposo parte,

Aos pátrios lares vos leve

Amor nos braços de Marte.

O Tejo, abaixando as ondas,

Vossos pés virá beijar;

Vai das Ninfas que criou,

Ver a Ninfa Tutelar.

Os prazeres com os risos

Sejam a vossa equipagem;

Revoem em torno as graças,

De quem sois a inveja, e a imagem:

Entrai nos tetos dourados,

Hoje lugar de saudade;

Ide, dos braços do amor,

Lançar-vos nos da amizade;

Levai-nos as doces noites,

Em que a voz que se escutava,

Sobre as asas da harmonia,

Nos nossos peitos entrava;

Quando o cômico travesso,

Entre jeitos, e corcovos,

Habilmente arremedava

Todos os músicos novos,

O triste, calado cravo;

Já não sente a destra mão;

Apenas é perseguido

Pelo Senhor dom João.

Ide, Senhora, levar-nos

No vosso rosto a alegria;

Fazei à triste Junqueira,

O que faz o Sol ao dia;

Mas, Senhora, a minha musa

Tem talvez errado os cultos;

Cuidando ter feito obséquios,

Talvez tenha feito insultos;

Dirão, que, trocando as cordas

Foram meus sons desiguais;

Que errei em falar aos filhos,

Sem falar primeiro aos pais.

Que podia esta embaixada

Se desse em mais hábil mão,

Cumprir as leis da saudade,

Sem violar as da razão;

Mas, Penalvas, dito, dito;

Defendo o meu sacrilégio;

Sois tudo; mas não sois noivos,

E é este o seu privilégio.