A criança e a borboleta

By Delminda Silveira de Sousa

Descambava sol d’estio

Junto a um rio,

Brincava criança linda

perseguindo irrequieta

Borboleta

Que seus volteios não finda.

Pousava agora a falena

Na açucena

Que sobre a margem balança;

Mas logo foge, voando,

Malogrando

Os esforços da criança.

A gentil perseguidora

Quasi chora,

Já cansada de correr;

E a perseguida mimosa

Deixa a rosa,

Vai do lírio o mel beber.

Agora para a criança

Que descansa,

Entre as flores se assentando;

Baixa o voo a borboleta,

Na violeta,

Juntinho dela pousando.

Ofegante, sorridente

De contente,

A criança estende a mão:

Quer prender a borboleta

Irrequieta,

Quer prendê-la, mas... em vão!

Foge ainda a flor alada,

Mas, coitada!

Vê nas águas outra flor;

Voa, pousa à tona d’água...

Oh! que mágoa!.

Oh! meu Deus, que fundo horror!

A criança tudo vira,

Não sorrira,

Não sorriu, que teve dó,

Que a borboleta querida

Perde a vida,

Nas águas lutando — só.

E num impulso animoso,

Generoso,

Lança-se ao rio também,

E junto da borboleta

— Já quieta —

Prendeu-a... prendeu-a bem!

Alva roupa tremulante,

Flutuante

Como a flor do nenúfar,

Ou como uma ave brincando,

Mergulhando,

Começava a se afundar...

Foi acaso ou Providência

Que a inocência

Tão generosa, salvou?...

Quem, nesse instante cruel,

— Um batel

À correnteza soltou?!

Presto, presto o bateleiro

Mui ligeiro

Às águas também se lança;

Foi — acaso, ou Providência

Que a inocência

Protegeu duma criança?...

Na margem — agora aquecida,

Volta à vida

A criança generosa:

Tem na mão fechada,

Bem guardada

A borboleta mimosa!