A D. CATARINA MICHAELA DE SOUZA, DEPOIS DA GUERRA DE 1801
Quando de meus largos anos
Revolvo a crônica antiga,
Vejo mil outras desordens,
Porém não vejo uma briga.
Zunindo ao sair da escola
A usada mútua pedrada,
Era meu paiz neutral
A primeira aberta escada.
Se em honra de lindos olhos
Na esquina o lenço puxava,
Em vendo brigão cadete
Logo o campo lhe largava.
Jurando um ódio eterno
A turbulentas pancadas.
As que levei e as que dei
Foram só palmatoadas.
Daqui, senhora, vereis
Qual eu tinha o coração.
Vendo o flagelo da guerra
Dentro da minha nação.
Guerra, detestável arte,
Escárnio da humanidade,
Que a rios de sangue humano
Põe nome de heroicidade!
Eu não vi em campo armado
Fuzilar cruenta espada,
Não vi contra inerme peito
Acesa boca apontada.
Mesmo entre os caros penates
Acerbos males sofria,
Uns efeitos da verdade,
Outros da melancolia.
Já me supunha marchando
Com ferrugenta espingarda
Um dos burlescos soldados
Da herege paisana guarda.
Arrostando ventos frios,
Me pintava a fantasia
Constipada sentinela
Á porta da cordoaria.
Outras vezes junto à minha
Supunha imiga fileira,
Pedindo com arma à cara
Castiçais e cafeteira.
Vi a desgrenhada irmã
Entre fiscais atrevidos.
Ir tirando das roupinhas
Os talheres escondidos.
Vi feroz bárbaro esbirro
Alçando fatais despachos,
Para levar-me depressa
Os meus vagarosos machos.
Vi com peito enternecido
Meu alvar, mas bom rapaz,
O qual veio despedir-se
Com seu tio capataz.
Grossos sapatos às costas,
Russo chapéu desabado,
O louro nascente buço
De grato pranto banhado,
Chorar sobre a mão amiga,
Que lhe leva para a terra
Niza tal, que parecia
Já um efeito da guerra.
Contra mim ia em Galiza
Dar ao matador fuzil
Pobres ombros que cresceram
Debaixo do meu barril.
Entretanto ilustre mão
Ditosamente alcançava
Fazer-me cessar os males,
Que eu via, e que imaginava.
A paz, a fugida paz
Ás suas vozes cedia,
E para os campos de Marte
As brancas asas abria.
Enquanto formosos dias
Os mansos ares fendendo.
A acabar-lhe a digna obra
De outros céus nos vem descendo,
Abraçai, senhora, o esposo,
Cujas razões ponderosas
Mortais sustos dissiparam
A tantas mães lacrimosas.
Cinjam demorados braços
O feliz consorte amado,
Que entre nos ilustres tetos
De oliveira coroado.
Saudosa gentil esposa
Isto ao vosso filho faz,
Deu-lh’o uma vez o himeneu,
Outra vez lh’o dê a paz.
Enquanto as mercês d’Augusto
Lhe honram o útil talento,
E pelas mãos da justiça
Lhe coroam o merecimento;
Enquanto em sonora lira
Lhe dais gratos tributos,
Cantando da paz dourada
Sérios vantajosos frutos;
Eu, a quem já voltam costas
As fugitivas Camenas,
E que só imito a Horácio
Mas libações a Mecenas;
Levantando em limpo copo
Sumo de maduros cachos.
Brindo a mão que torna a dar-me
O meu galego e os meus machos.
E neles, no único passo,
De que sei que são capazes,
Sairei apregoando
Os elogios e as pazes.