A D. CATARINA MICHAELA DE SOUZA, DEPOIS DA GUERRA DE 1801

By Nicolau Tolentino de Almeida

Quando de meus largos anos

Revolvo a crônica antiga,

Vejo mil outras desordens,

Porém não vejo uma briga.

Zunindo ao sair da escola

A usada mútua pedrada,

Era meu paiz neutral

A primeira aberta escada.

Se em honra de lindos olhos

Na esquina o lenço puxava,

Em vendo brigão cadete

Logo o campo lhe largava.

Jurando um ódio eterno

A turbulentas pancadas.

As que levei e as que dei

Foram só palmatoadas.

Daqui, senhora, vereis

Qual eu tinha o coração.

Vendo o flagelo da guerra

Dentro da minha nação.

Guerra, detestável arte,

Escárnio da humanidade,

Que a rios de sangue humano

Põe nome de heroicidade!

Eu não vi em campo armado

Fuzilar cruenta espada,

Não vi contra inerme peito

Acesa boca apontada.

Mesmo entre os caros penates

Acerbos males sofria,

Uns efeitos da verdade,

Outros da melancolia.

Já me supunha marchando

Com ferrugenta espingarda

Um dos burlescos soldados

Da herege paisana guarda.

Arrostando ventos frios,

Me pintava a fantasia

Constipada sentinela

Á porta da cordoaria.

Outras vezes junto à minha

Supunha imiga fileira,

Pedindo com arma à cara

Castiçais e cafeteira.

Vi a desgrenhada irmã

Entre fiscais atrevidos.

Ir tirando das roupinhas

Os talheres escondidos.

Vi feroz bárbaro esbirro

Alçando fatais despachos,

Para levar-me depressa

Os meus vagarosos machos.

Vi com peito enternecido

Meu alvar, mas bom rapaz,

O qual veio despedir-se

Com seu tio capataz.

Grossos sapatos às costas,

Russo chapéu desabado,

O louro nascente buço

De grato pranto banhado,

Chorar sobre a mão amiga,

Que lhe leva para a terra

Niza tal, que parecia

Já um efeito da guerra.

Contra mim ia em Galiza

Dar ao matador fuzil

Pobres ombros que cresceram

Debaixo do meu barril.

Entretanto ilustre mão

Ditosamente alcançava

Fazer-me cessar os males,

Que eu via, e que imaginava.

A paz, a fugida paz

Ás suas vozes cedia,

E para os campos de Marte

As brancas asas abria.

Enquanto formosos dias

Os mansos ares fendendo.

A acabar-lhe a digna obra

De outros céus nos vem descendo,

Abraçai, senhora, o esposo,

Cujas razões ponderosas

Mortais sustos dissiparam

A tantas mães lacrimosas.

Cinjam demorados braços

O feliz consorte amado,

Que entre nos ilustres tetos

De oliveira coroado.

Saudosa gentil esposa

Isto ao vosso filho faz,

Deu-lh’o uma vez o himeneu,

Outra vez lh’o dê a paz.

Enquanto as mercês d’Augusto

Lhe honram o útil talento,

E pelas mãos da justiça

Lhe coroam o merecimento;

Enquanto em sonora lira

Lhe dais gratos tributos,

Cantando da paz dourada

Sérios vantajosos frutos;

Eu, a quem já voltam costas

As fugitivas Camenas,

E que só imito a Horácio

Mas libações a Mecenas;

Levantando em limpo copo

Sumo de maduros cachos.

Brindo a mão que torna a dar-me

O meu galego e os meus machos.

E neles, no único passo,

De que sei que são capazes,

Sairei apregoando

Os elogios e as pazes.