A D. DOMINGOS DE ASSIS MASCARENHAS

By Nicolau Tolentino de Almeida

Clio uma seta tira

Da aljava de ouro, que pelo ar vazio

Longe correndo fira

Junto ao Mondego, saudoso rio:

Ali em torno às suas margens voe,

E por feliz três vezes o apregoe.

As claras águas regam

Plantas belas, fecundas, generosas:

Com desvelo se empregam

Em cultivá-las mãos industriosas:

Quão doces frutos, quão cheirosas flores

De tais águas, tais plantas, tais cultores!

Ergue, ilustre Mondego,

Ergue tua cabeça sobre as águas:

Assaz no fundo pego

Choraste um tempo tuas tristes mágoas.

Olha teus campos como esmalta agora

Em formosa união Pomona e Flora.

Oh! seio de candura,

Mascarenhas, tu és o alvo, a meta,

Que ansiosa procura

Da minha Clio a empenada solta.

Tu na alma paz, na sanguinosa guerra

Podes ornar a lua e alheia leria.

Mas boa sorte mude

Meu dito, e a outra parte te não chame:

E onde tanta virtude

Tem a raiz, os frutos seus derrame:

Nem menos tempo o sol ilustre e aquente

A quem o viu desde o seu claro oriente.

Porém, se é ordenado

Da Providência sábia, santa, eterna,

Cristão peito humilhado

Adora o Sumo Ser que assim governa:

Antes se goza, e dentro n’alma estima

Que astro tão belo alegre mais d’um clima.

Entre tanto difunde

Na pátria tua luz copiosa e clara;

Que, se logo confunde

Os fracos olhos, depois guia e aclara.

Arda ante incertos pés (e gritem vícios)

Alta tocha, que mostre os precipícios.

Constância! que guardado

Está o galardão a teus suores,

Onde em cume estreitado

Vibra o templo da glória resplandores.

Dali olhos não tires; que ao trabalho

É doce viração, é fresco orvalho.

Tu, e esse coro ilustre

De mancebos heróis, que se obrigaram

A dar ao mundo lustre.

Quando o alto sangue dos avós herdaram;

Concebei novo fogo e novo brio

Ouvindo onde vos chama a minha Clio.

Oh! se alguém me pusesse

Nas margens do Mondego claro e frio!

Certo me não vencesse

Cisne de Dirce sobre o pátrio rio.

Ali tão docemente vos cantara.

Que, a ouvir-me, feras, montes abalara.

Mas engenho ir recusa

Onde ir amor e gratidão me incita:

Néscia, se o esperas, musa!

Não corre lasso pé ’strada infinita.

Almas ilustres, havereis somente

O dom sincero de um desejo ardente.

Só mal sonora rima,

Que sem veia forjou saudade e zelo,

Lerão o amável Lima,

O sábio Castro, e o profundo Melo,

Pedras, que tu mal soíTres, oh Lisboa,

Faltarem tanto tempo à tua c’roa.