A D. DOMINGOS DE ASSIS MASCARENHAS
Clio uma seta tira
Da aljava de ouro, que pelo ar vazio
Longe correndo fira
Junto ao Mondego, saudoso rio:
Ali em torno às suas margens voe,
E por feliz três vezes o apregoe.
As claras águas regam
Plantas belas, fecundas, generosas:
Com desvelo se empregam
Em cultivá-las mãos industriosas:
Quão doces frutos, quão cheirosas flores
De tais águas, tais plantas, tais cultores!
Ergue, ilustre Mondego,
Ergue tua cabeça sobre as águas:
Assaz no fundo pego
Choraste um tempo tuas tristes mágoas.
Olha teus campos como esmalta agora
Em formosa união Pomona e Flora.
Oh! seio de candura,
Mascarenhas, tu és o alvo, a meta,
Que ansiosa procura
Da minha Clio a empenada solta.
Tu na alma paz, na sanguinosa guerra
Podes ornar a lua e alheia leria.
Mas boa sorte mude
Meu dito, e a outra parte te não chame:
E onde tanta virtude
Tem a raiz, os frutos seus derrame:
Nem menos tempo o sol ilustre e aquente
A quem o viu desde o seu claro oriente.
Porém, se é ordenado
Da Providência sábia, santa, eterna,
Cristão peito humilhado
Adora o Sumo Ser que assim governa:
Antes se goza, e dentro n’alma estima
Que astro tão belo alegre mais d’um clima.
Entre tanto difunde
Na pátria tua luz copiosa e clara;
Que, se logo confunde
Os fracos olhos, depois guia e aclara.
Arda ante incertos pés (e gritem vícios)
Alta tocha, que mostre os precipícios.
Constância! que guardado
Está o galardão a teus suores,
Onde em cume estreitado
Vibra o templo da glória resplandores.
Dali olhos não tires; que ao trabalho
É doce viração, é fresco orvalho.
Tu, e esse coro ilustre
De mancebos heróis, que se obrigaram
A dar ao mundo lustre.
Quando o alto sangue dos avós herdaram;
Concebei novo fogo e novo brio
Ouvindo onde vos chama a minha Clio.
Oh! se alguém me pusesse
Nas margens do Mondego claro e frio!
Certo me não vencesse
Cisne de Dirce sobre o pátrio rio.
Ali tão docemente vos cantara.
Que, a ouvir-me, feras, montes abalara.
Mas engenho ir recusa
Onde ir amor e gratidão me incita:
Néscia, se o esperas, musa!
Não corre lasso pé ’strada infinita.
Almas ilustres, havereis somente
O dom sincero de um desejo ardente.
Só mal sonora rima,
Que sem veia forjou saudade e zelo,
Lerão o amável Lima,
O sábio Castro, e o profundo Melo,
Pedras, que tu mal soíTres, oh Lisboa,
Faltarem tanto tempo à tua c’roa.