A D. FERNANDO DE LIMA, SOBRE O MESMO ASSUNTO DA IMPRESSÃO DAS OBRAS DO AUTOR

By Nicolau Tolentino de Almeida

Forte co’a vossa promessa

Dura voz se vai alçar;

Não vem como das mais vezes,

Não vem pedir, vem ralhar;

Não é de estéril rabugem

Raiva inútil, que em mim lavra;

Venho brigar, e vencer-vos,

Minha arma é vossa palavra;

São leis os priscos rifões;

Na mão a lei me metestes;

Sei que a ricos não deveis,

Mas a pobre prometestes;

Prometestes, que uma imprensa

Faria um faminto farto;

Meu livro, e as vossas promessas

Inda estão no vosso quarto;

Sei que a vossa ilustre casa

É das que honram Portugal;

Mas eu quero outra melhor,

Quero a casa Manescal;

Reis de Espanha a vossa honraram,

E eu espero o mesmo dele;

Fizeram-vos ricos homens,

O mesmo me fará ele;

Vós sois protetor das artes,

E d’aí meu mal viria;

Talvez que pela da dança

Vos esqueça a da poesia;

Por Dutein esquece tudo;

Estes grupos tão gabados,

Não digo que são os vossos,

Porém são os meus pecados;

As três Graças a fadara,

Mas seus dons funestos são;

Tira ás deusas a maçã,

E a um triste poeta o pão;

Se a vosso pai vou queixar-me,

Juro que aceita a querela;

Juro, que vos quer os olhos

Antes em mim, do que nela;

Mas, Senhor, deixando graças

De poética licença,

Este brinco quer dizer

Que apresseis a tal imprensa;

Até por curiosidade

Forjai-me este mialheiro;

Só para vermos que efeito

Faz em mim o ter dinheiro;

Talvez que altiva luneta

Nos piscos olhos traidores

Não conheça uns tantos homens,

Principalmente os credores;

Talvez que o novel galego,

Que soltas bragas trazia,

Entaipado em pantalonas

Dê ao Amo senhoria;

Talvez que inventando heranças

Bisneto de grão Senhor,

A falso espectro agradeça

O que devo ao protetor;

Senhor, se o oiro tal pode;

Levantai da empresa a mão;

Antes réu do meu tendeiro,

Do que réu de ingratidão.

Mas inda agora é que eu vejo,

Quanto me fui desmentindo;

Disse que vinha ralhar,

Por fim acho-me pedindo;

Não pude acabar a farsa;

Costume custa a vencer;

Convosco a minha linguagem

É pedir, e agradecer.