A D. JOÃO DALENCASTRE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA, ASSISTINDO NO MESMO PALACIO, ...

By Gregório de Matos Guerra

A quem não dá aos fiéis

perdão, se lhe há de outorgar,

eu hoje vos hei de dar,

pedindo me perdoeis:

dou-vos, o que mais quereis,

e o que pedis por favor,

que quando chega um Senhor

a pedir, por não mandar,

mal lhe podia eu faltar

cuma sátira em louvor.

Não fui beijar-vos a mão,

e dar-vos a bem chegada,

porque nessa alta morada

nunca tive introdução:

até agora a indignação

não quis tão altivo trato,

mas hoje é quase distrato,

porque em todo mundo inteiro

de fidalgo, e de escudeiro

são brincos de cão com gato.

Os Fidalgos, e os Senhores

faltos de jurisdição

fazem tudo, e tudo dão

a amigos, e servidores:

os que jogam de maiores

por sangue, e não por poder

fazem jogo de entreter:

porque o sangue desigual

sempre brota ao natural,

e o mando bota a perder.

Perdoai a digressão,

porque esta prolixidade

é boa luz da verdade,

e escusa a sátira então:

quando se ofreça ocasião,

meu Senhor, de que eu vos veja

(na Igreja, ou na rua seja)

hei de prender-vos os pés,

e estai certo, que essa vez

vos não valerá a Igreja.

Estou na minha quintinha,

que é chácara soberana,

ora comendo a banana,

jogando ora a laranjinha:

nem vizinho, nem vizinha

tenho, porque sempre cansa

quem vê tudo, e nada alcança,

e na cidade são raros

os olhos, que não são claros,

se olhos são de vizinhança.

Mas inda que desterrado

me tem o fado, e a sorte

por um Juiz de má morte,

de quem não tenho apelado:

é hoje, que sois chegado,

Senhor, o tempo, em que apele;

fazei, que El-Rei o desvele

pagar o serviço meu,

pois é bizarro, e só eu

não vim muito pago dele.