A D. MARTHA DE CHRISTO PRIMEYRA ABBADEÇA DO DESTERRO GALANTEA O POETA OBSEQUIOSA...

By Gregório de Matos Guerra

Ilustríssima Abadessa,

generosa Dona Marta,

que inda que nunca vos vi,

vos conheço pela fama.

Um ludíbrio da fortuna,

epílogo de desgraças

se oferece a vossos pés,

para beijar-vos as plantas.

E bem, que a tão breve pé

sobra uma boca tamanha,

que mal me estará fazer-vos

as adorações sobradas.

Que dissera eu, se vos vira

a beleza dessa cara,

dos corações doce enleio,

suave encanto das almas?

Mas já que nunca vos vi,

por não ter dita tão alta,

a informação, que tirei,

para desejar-vos basta.

Vós sois, Senhora Abadessa,

fruto de tão nobre planta,

que se não nascêreis vós,

mal pudera outro imitá-la.

O que vos peço, é querer-vos

ou que me désseis palavra

de consentir, que vos queira,

que é dom, que não custa nada.

Eu sou um conimbricense

nascido nestas montanhas,

e sobre um ovo chocado

entre gemas, e entre clara.

Servi a Amor muitos anos,

e como sempre mal paga,

tenho a alma sabichona

já de muito escarmentada.

Não tenho medo de vós,

que não sois das namoradas,

dadas a mui pertendidas

pelo meio de falsárias.

Sois uma Freira mui linda,

bem nascida, e bem criada.

e o gabo não vos assuste,

que ninguém gorda vos chama.

A este pobre fradulário

dai qualquer favor por carta,

porque no tardar do prêmio

não perigue a esperança.