A D. MARTHA DE CHRISTO PRIMEYRA ABBADEÇA DO DESTERRO GALANTEA O POETA OBSEQUIOSA...
Ilustríssima Abadessa,
generosa Dona Marta,
que inda que nunca vos vi,
vos conheço pela fama.
Um ludíbrio da fortuna,
epílogo de desgraças
se oferece a vossos pés,
para beijar-vos as plantas.
E bem, que a tão breve pé
sobra uma boca tamanha,
que mal me estará fazer-vos
as adorações sobradas.
Que dissera eu, se vos vira
a beleza dessa cara,
dos corações doce enleio,
suave encanto das almas?
Mas já que nunca vos vi,
por não ter dita tão alta,
a informação, que tirei,
para desejar-vos basta.
Vós sois, Senhora Abadessa,
fruto de tão nobre planta,
que se não nascêreis vós,
mal pudera outro imitá-la.
O que vos peço, é querer-vos
ou que me désseis palavra
de consentir, que vos queira,
que é dom, que não custa nada.
Eu sou um conimbricense
nascido nestas montanhas,
e sobre um ovo chocado
entre gemas, e entre clara.
Servi a Amor muitos anos,
e como sempre mal paga,
tenho a alma sabichona
já de muito escarmentada.
Não tenho medo de vós,
que não sois das namoradas,
dadas a mui pertendidas
pelo meio de falsárias.
Sois uma Freira mui linda,
bem nascida, e bem criada.
e o gabo não vos assuste,
que ninguém gorda vos chama.
A este pobre fradulário
dai qualquer favor por carta,
porque no tardar do prêmio
não perigue a esperança.