A DAMAZIA QUE DAVA PRESSA À HUMA SAYA QUE SE ESTAVA FAZENDO, PARA BOTAR NUMA FES...

By Gregório de Matos Guerra

Muito mentes, Mulatinha:

valha-te deus por Damásia!

não sei, quem sendo tu escura,

te ensina a mentir às claras.

Tal vestido, com tal pressa?

não vi mais ligeira saia;

mas como a seda é ligeira,

foi a mentira apressada.

Tal vestido não é teu,

nem tu tens, Damásia, cara,

para ganhar um vestido,

que custa tantas patacas.

Tu ganhas dous, três tostões

por duas ou três topadas;

não chegam as galaduras

para deitar uma gala.

Nem para os feitios chegam

os troquinhos, que tu ganhas,

pois não vale o teu feitio

mais que até meia-pataca.

De Soldado até Sargento,

ou até Cabo de esquadra

não passa o teu roçagante,

nem te chega a triste alçada.

Estes, que te podem dar,

mais que uma vara de caça,

uma cinta de baeta

e saia de persiana.

Colete de chamalote,

e de vara e meia a fralda,

que fazem oito mil-réis,

que é valor da pobre farda.

Todos sabem, que o vestido,

que em verdes campos se esmalta,

é verdura de algum besta,

que em tua Senhora pasta.

Mas o que é dela, teu é,

que é outra que tal jangada,

e talvez por to emprestar,

que ficaria ela em fraldas.

Apostemos, que não vestes

outra vez a verde saia,

e nem de a vestires mais,

te ficam as esperanças?

Ora toma o meu conselho,

e vive desenganada,

que enquanto fores faceira,

não hás de ganhar pataca.