A DAMAZIA QUE DAVA PRESSA À HUMA SAYA QUE SE ESTAVA FAZENDO, PARA BOTAR NUMA FES...
Muito mentes, Mulatinha:
valha-te deus por Damásia!
não sei, quem sendo tu escura,
te ensina a mentir às claras.
Tal vestido, com tal pressa?
não vi mais ligeira saia;
mas como a seda é ligeira,
foi a mentira apressada.
Tal vestido não é teu,
nem tu tens, Damásia, cara,
para ganhar um vestido,
que custa tantas patacas.
Tu ganhas dous, três tostões
por duas ou três topadas;
não chegam as galaduras
para deitar uma gala.
Nem para os feitios chegam
os troquinhos, que tu ganhas,
pois não vale o teu feitio
mais que até meia-pataca.
De Soldado até Sargento,
ou até Cabo de esquadra
não passa o teu roçagante,
nem te chega a triste alçada.
Estes, que te podem dar,
mais que uma vara de caça,
uma cinta de baeta
e saia de persiana.
Colete de chamalote,
e de vara e meia a fralda,
que fazem oito mil-réis,
que é valor da pobre farda.
Todos sabem, que o vestido,
que em verdes campos se esmalta,
é verdura de algum besta,
que em tua Senhora pasta.
Mas o que é dela, teu é,
que é outra que tal jangada,
e talvez por to emprestar,
que ficaria ela em fraldas.
Apostemos, que não vestes
outra vez a verde saia,
e nem de a vestires mais,
te ficam as esperanças?
Ora toma o meu conselho,
e vive desenganada,
que enquanto fores faceira,
não hás de ganhar pataca.