A DESPEDIDA
Adeus, adeus, é chegada
A hora da despedida.
Vou, que importa se te deixo
Neste adeus a minha vida.
Foste ingrata aos meus extremos,
Não te peço gratidão;
Perdão — para os meus carinhos,
Aos meus amores — perdão!
Eu era ente da terra,
eras um querubim!
Deus tirou-te dos seus anjos,
Não nasceste para mim.
Perdoa a meus amores
Esta estulta elevação;
Perdão para os meus carinhos,
Aos meus amores — perdão!
O crime que cometi
Foi muito punido já,
Castigou-me o teu desprezo,
Maior castigo não há.
Castigado, reconheço
Quanto é justa a punição.
Perdão — para os meus carinhos,
Aos meus amores — perdão!
Pouca vida já me resta!
Eu sinto que esta amargura
Tão intensa muito cedo
Há de abrir-me a sepultura.
Do crime que fiz de amar-te,
Vem dar-me a absolvição:
Perdão — para os meus carinhos,
Aos meus amores — perdão!
Se me adoras, se me queres,
Como dizes com ardor,
Dá-me um beijo tão-somente
Em prova do teu amor...
A paixão em que me abraso
Dilacera o peito meu...
Dá-me prazer, dá-me vida,
Dá-me, dá-me, um beijo teu.
Amor anima e acende
Em chamas do céu nascidas...
Dois corações num abraço,
Em um beijo duas vidas.
Uma vida que me falta...,
A metade do meu ser
Quero num beijo amoroso
Dos teus lábios receber.
Sumiu-se, mas ainda escuto,
Seus gemidos, que aflição!
E esta mancha deste sangue
Não se apaga. Oh! maldição!
Espectro, descansa,
Que ao triste homicida
As dores do inferno
Começam na vida.
Ei-lo ali com o mesmo ferro.
Oh! que terror! que tortura!
Cavando junto a meu leito,
A abrir-me a sepultura.
Espectro, piedade;
Não caves assim...
Eu dei-te um só golpe
Tu mil sobre mim.
Acabou-se a minha crença,
Sem crença devo morrer:
Quando deixei de crer nela,
No que mais poderei crer?
Onde a verdade
Pode fulgir,
Se até um anjo
Sabe mentir?
Como um anjo me jurou,
Como um anjo me sorriu,
Como um anjo perjurou,
Quebrou a jura — mentiu!
Onde a verdade...
No olhar e nas palavras
Onde a inocência respira,
Em tudo que diz — verdade,
Só encontrei a mentira.
Onde a verdade...
Que mais desejas?
Tudo te dei;
De tudo em troca
Nada alcancei.
Dei-te meu peito
Em pranto e ais;
Dei-te minha alma;
Que queres mais?
Juraste eterna
Fidelidade;
Seguiu-se à jura
A falsidade.
Em toda parte
Vejo rivais;
A fé perdi-te,
Não creio mais.
Se não me queres,
Se não me adoras,
Quando me queixo
Que tens que choras?
Ah! não me prendes
No pranto teu;
Não quero um pranto
Que não é meu.
Mas, oh! perdoa!
Foi ilusão;
Dos meus tormentos
Tem compaixão.
Perdoa, esquece
O meu rigor;
Não fere a ofensa
Que vem de amor.