A DESPEDIDA

By Laurindo José da Silva Rabelo

Adeus, adeus, é chegada

A hora da despedida.

Vou, que importa se te deixo

Neste adeus a minha vida.

Foste ingrata aos meus extremos,

Não te peço gratidão;

Perdão — para os meus carinhos,

Aos meus amores — perdão!

Eu era ente da terra,

eras um querubim!

Deus tirou-te dos seus anjos,

Não nasceste para mim.

Perdoa a meus amores

Esta estulta elevação;

Perdão para os meus carinhos,

Aos meus amores — perdão!

O crime que cometi

Foi muito punido já,

Castigou-me o teu desprezo,

Maior castigo não há.

Castigado, reconheço

Quanto é justa a punição.

Perdão — para os meus carinhos,

Aos meus amores — perdão!

Pouca vida já me resta!

Eu sinto que esta amargura

Tão intensa muito cedo

Há de abrir-me a sepultura.

Do crime que fiz de amar-te,

Vem dar-me a absolvição:

Perdão — para os meus carinhos,

Aos meus amores — perdão!

Se me adoras, se me queres,

Como dizes com ardor,

Dá-me um beijo tão-somente

Em prova do teu amor...

A paixão em que me abraso

Dilacera o peito meu...

Dá-me prazer, dá-me vida,

Dá-me, dá-me, um beijo teu.

Amor anima e acende

Em chamas do céu nascidas...

Dois corações num abraço,

Em um beijo duas vidas.

Uma vida que me falta...,

A metade do meu ser

Quero num beijo amoroso

Dos teus lábios receber.

Sumiu-se, mas ainda escuto,

Seus gemidos, que aflição!

E esta mancha deste sangue

Não se apaga. Oh! maldição!

Espectro, descansa,

Que ao triste homicida

As dores do inferno

Começam na vida.

Ei-lo ali com o mesmo ferro.

Oh! que terror! que tortura!

Cavando junto a meu leito,

A abrir-me a sepultura.

Espectro, piedade;

Não caves assim...

Eu dei-te um só golpe

Tu mil sobre mim.

Acabou-se a minha crença,

Sem crença devo morrer:

Quando deixei de crer nela,

No que mais poderei crer?

Onde a verdade

Pode fulgir,

Se até um anjo

Sabe mentir?

Como um anjo me jurou,

Como um anjo me sorriu,

Como um anjo perjurou,

Quebrou a jura — mentiu!

Onde a verdade...

No olhar e nas palavras

Onde a inocência respira,

Em tudo que diz — verdade,

Só encontrei a mentira.

Onde a verdade...

Que mais desejas?

Tudo te dei;

De tudo em troca

Nada alcancei.

Dei-te meu peito

Em pranto e ais;

Dei-te minha alma;

Que queres mais?

Juraste eterna

Fidelidade;

Seguiu-se à jura

A falsidade.

Em toda parte

Vejo rivais;

A fé perdi-te,

Não creio mais.

Se não me queres,

Se não me adoras,

Quando me queixo

Que tens que choras?

Ah! não me prendes

No pranto teu;

Não quero um pranto

Que não é meu.

Mas, oh! perdoa!

Foi ilusão;

Dos meus tormentos

Tem compaixão.

Perdoa, esquece

O meu rigor;

Não fere a ofensa

Que vem de amor.