A DOMINGOS NUNES DO COUTO VIZINHO DO POETA A QUEM BURLARAM HUNS AMIGOS FINGINDO-...
Ontem sobre a madrugada
à porta do meu vizinho
foi bater certo meirinho
com toda a justiça armada:
o vizinho à matinada
de tão grande rebuliço,
quis logo erguer o toutiço,
mas não deu passo o coitado,
que ficou embasbacado,
porque era tudo feitiço.
A um bater tão porfiado,
que ele atento porfiou,
quando se desenganou,
então foi mais enganado:
cuidou, que era já tomado
da Justiça, que madruga:
ergue-se, dizendo esbruga,
e tendo por justa causa
cantar-lhe a turba sem pausa,
lhe quis responder com fuga.
“Cerca, cerca o aposento”,
e apenas ele ouviu tal,
tinha varado o quintal
a sua pá como um vento:
achou por impedimento
espinhas de um limoeiro,
um bosque, um tronco, um madeiro,
e tudo isto quanto achou,
um só Nunes arrastou,
como se fora um Ribeiro.
Com tanto medo no rabo
o levou com mil pesares
a Justiça pelos ares,
como se fora o diabo:
achando-se já por cabo
no mar entre mil cardumes,
hoje faz muitos queixumes
aos fratelos, e fratelas,
de que tem dor de canelas,
sem ninguém lhe dar ciúmes.
Sobre isto teima, e porfia
da dor entre os desatinos,
que com tão maus Teatinos
não quer fazer companhia:
que de noite, nem de dia
há de ir aos homiziados,
e a mais que venham soldados,
antes ir preso se atreve
do que por culpa tão leve
sofrer brincos tão pesados.
Não remoqueia às escuras,
mas diz muito claramente,
que antes preso a uma corrente,
que sofrer estas solturas:
queixa-se em tais desventuras
ao Surgião, e ao Barbeiro,
dizendo por derradeiro
lastimoso, e lastimado,
que o chasco o tem tão picado,
que lhe criara um unheiro.
Queixa-se de que a Mãe velha
lhe nascesse nesta festa
um bom corno sobre a testa
como vaca, sendo ovelha:
a Mãe como velha relha
está sobre a testa inchada
de praguejar tão cansada,
que diz, que antes de morrer
sobre o Lobinho há de ver
a justiça, justiçada.
Curando-se o Filho estava,
a casa se confundia,
a crioula lhe carpia,
e a tal velha praguejava:
tudo em confusão andava,
o ferido a se curar,
a crioula a trabalhar,
o Surgião a ir, e vir,
toda a Justiça a se rir,
quando a Velha a praguejar.