A DOMINGOS NUNES DO COUTO VIZINHO DO POETA A QUEM BURLARAM HUNS AMIGOS FINGINDO-...

By Gregório de Matos Guerra

Ontem sobre a madrugada

à porta do meu vizinho

foi bater certo meirinho

com toda a justiça armada:

o vizinho à matinada

de tão grande rebuliço,

quis logo erguer o toutiço,

mas não deu passo o coitado,

que ficou embasbacado,

porque era tudo feitiço.

A um bater tão porfiado,

que ele atento porfiou,

quando se desenganou,

então foi mais enganado:

cuidou, que era já tomado

da Justiça, que madruga:

ergue-se, dizendo esbruga,

e tendo por justa causa

cantar-lhe a turba sem pausa,

lhe quis responder com fuga.

“Cerca, cerca o aposento”,

e apenas ele ouviu tal,

tinha varado o quintal

a sua pá como um vento:

achou por impedimento

espinhas de um limoeiro,

um bosque, um tronco, um madeiro,

e tudo isto quanto achou,

um só Nunes arrastou,

como se fora um Ribeiro.

Com tanto medo no rabo

o levou com mil pesares

a Justiça pelos ares,

como se fora o diabo:

achando-se já por cabo

no mar entre mil cardumes,

hoje faz muitos queixumes

aos fratelos, e fratelas,

de que tem dor de canelas,

sem ninguém lhe dar ciúmes.

Sobre isto teima, e porfia

da dor entre os desatinos,

que com tão maus Teatinos

não quer fazer companhia:

que de noite, nem de dia

há de ir aos homiziados,

e a mais que venham soldados,

antes ir preso se atreve

do que por culpa tão leve

sofrer brincos tão pesados.

Não remoqueia às escuras,

mas diz muito claramente,

que antes preso a uma corrente,

que sofrer estas solturas:

queixa-se em tais desventuras

ao Surgião, e ao Barbeiro,

dizendo por derradeiro

lastimoso, e lastimado,

que o chasco o tem tão picado,

que lhe criara um unheiro.

Queixa-se de que a Mãe velha

lhe nascesse nesta festa

um bom corno sobre a testa

como vaca, sendo ovelha:

a Mãe como velha relha

está sobre a testa inchada

de praguejar tão cansada,

que diz, que antes de morrer

sobre o Lobinho há de ver

a justiça, justiçada.

Curando-se o Filho estava,

a casa se confundia,

a crioula lhe carpia,

e a tal velha praguejava:

tudo em confusão andava,

o ferido a se curar,

a crioula a trabalhar,

o Surgião a ir, e vir,

toda a Justiça a se rir,

quando a Velha a praguejar.