À DONA CATHARINA MICAELA DE SOUZA, ESPOSA DE LUIZ PINTO DE SOUZA, TENDO ESTE EXP...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, Apolo bem sabe

Que sois digna companhia

De quem em doirados anos

Lhe honrava a doce poesia;

Inda de viçoso loiro

Lhe guarda a verde coroa;

Fez-lhe falta em sua corte,

Mas a bem de outra o perdoa;

Manda, pois lhe estais ao lado,

Canteis polidos louvores

A quem em honra ao Parnaso

Fez versos, e faz favores;

Viu o prazer generoso

Com que acabou a tenção,

Que crua parca arrancara

De outra benfeitora Mão;

Viu, que apressou seus negócios

Perante quem todos rege;

E que amigo do seu monte,

Ora o sobe, ora o protege;

Grato ao grande benefício

Vos envia o estilo, e a lira;

Manda-vos cantar-lhe os hinos,

Que lhe traja, e vos inspira;

Diz que esta empresa vos toca,

E que não admite escusas;

Que favor feito ao Parnaso

Hão de agradecê-lo as Musas;

Pulsai a lira, enfreai

Bravos ventos rugidores;

Cantai agradecimentos

A quem cantastes amores;

Em má honra a longas cãs

Desta empresa escuso fico;

Fechou-me Apolo a sua Arte,

E quer que aprenda a de rico;

Dura, enganosa ciência!

Incômoda, tumultuária!

Muito mais a quem andou

Sempre na escola contrária;

Já em sossegado sono

Não vejo doces ficções;

Inda a obra está na Imprensa

E já sonho com ladrões;

Sonho, que escalada a porta,

Medonhas caras sem dó,

Vem furtar a Tolentino

O que ele furta a Boileau;

Co’esse metal turbulento

Já d’antemão me malquisto;

Que me não fará a posse,

Se a esperança já faz isto?

Sei quem pôs a última força

Ao punhal, de que me doo;

Mas, enfim, nada de raivas,

Dizei-lhe que eu lhe perdoo;

E que é tal nesta virtude

Meu conforme coração,

Que não só perdoo o mal,

Mas beijo por ele a mão.