A esmola

By Delminda Silveira de Sousa

Uma velhinha

Mui pobrezinha,

Quando eu passava,

Junto da escola

Pedindo esmola,

Sempre encontrava.

Eu nada tinha

Que à pobrezinha

Pudesse dar,

E, quando a via,

Só lhe sorria,

Sem lhe falar.

Mas, cogitava...

Mas, desejava

Dar-lhe um presente,

Que lhe agradasse,

E que a tornasse

Leda, contente!

Todo bordado,

(Mui delicado!)

Um avental,

Com gosto e jeito,

Eu tinha feito

Pelo Natal!

Como regalo

À velha dá-lo,

Logo cismei:

Era Natal...

O avental

lhe destinei!

Mas, no bolsinho,

Escondidinho,

Pus — um mil réis;

Daquela prata

Sonora e grata

Que conheceis.

Depois, dobrado,

Com fita atado,

Num papel fino,

Qualquer dissera

Que ele viera

Do Deus-Menino.

Quando à velhinha,

Tão pobrezinha,

Ofereci

Essa teteia,

Ela receia...

Depois, sorri!

Lá, no boisinho

Escondidinho,

O meu segredo,

A pobre o sente,

Toca-o, fremente,

Co’o fraco dedo!

E seu semblante

Vi, radiante

Dum gozo santo!

— A esmola dada,

Dissimulada,

Tem mais encanto!