À ESQUIVANÇA DE LAURA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Coração triste, em que cuidas?

Que é d’ela a tua alegria?

Por que causa assim te entregas

Á negra melancolia?

A revezes costumado

Triunfavas da tristeza,

Hoje te vejo abatido,

Ver do dia a luz te pesa.

Quanto amor é triste! Aquela,

A quem com tanto alvoroço

Julgavas ser mor ventura,

Foi o teu maior destroço.

Antes Laura nunca viras!

Nem eu infeliz seria,

Nem seu peito delicado

Nota de cruel teria.

D’ambos a sorte contrária

Quis dar causa a meus cuidados,

Ela sofre a minha teima,

Eu sinto os seus desagrados.

O pior é que eu não posso

Deixar jamais de adorá-la;

D’ela, quem sabe se amor

Inda poderá mudá-la.

Ah! que assim é que ela engana

Peitos desapercebidos!

Vai sustentando esperanças

Inda apesar dos sentidos.

Que monstro sou eu tão fero!

Duvido, maior nascesse;

Pois entre lodos os homens

Só a mim Laura aborrece.

Mas não é esse o motivo,

E só minha dura estrela;

Logo quando nasceu Laura,

Por meu mal nasceu tão bela.

Em mim amor quis vingar-se

Da falta d’idolatria,

Pois a adorá-lo em seu templo

Eu não tinha entrado um dia.

Notou ele este desprezo,

E cheio d’enfado e d’ira

Aos olhos voa de Laura,

E de lá feroz me atira.

Foi debalde a resistência;

Depois das forças unidas,

Passou do peito à ofensa,

Encheu-m’o de mil feridas.

Vingado logo se ausenta.

Sem que mais o ódio deixasse;

Ah! que importava a vitória.

Se amor em Laura ficasse’

Desde então as cruéis dores

Sinto no rasgado peito;

E se Laura me não vale,

Toda a cura é sem efeito,

Mas d’ela que esperar posso,

Se gosta do meu tormento?

O meu mal é sem remédio,

Em vão procurá-lo intento

Eu bem sei que os seus desprezos

Servem de amor à vingança;

Mas talvez que inda ele mesmo

Castigue a sua esquivança.

Vale-se amor da beleza

Para castigar a ofensa;

Mas não quer que o instrumento

Do seu poder não se vença.

Enfim, coração, já agora

Destinei a minha sorte;

Ou eu hei de vencer Laura,

Ou me dará Laura a morte.