À ESQUIVANÇA DE LAURA
Coração triste, em que cuidas?
Que é d’ela a tua alegria?
Por que causa assim te entregas
Á negra melancolia?
A revezes costumado
Triunfavas da tristeza,
Hoje te vejo abatido,
Ver do dia a luz te pesa.
Quanto amor é triste! Aquela,
A quem com tanto alvoroço
Julgavas ser mor ventura,
Foi o teu maior destroço.
Antes Laura nunca viras!
Nem eu infeliz seria,
Nem seu peito delicado
Nota de cruel teria.
D’ambos a sorte contrária
Quis dar causa a meus cuidados,
Ela sofre a minha teima,
Eu sinto os seus desagrados.
O pior é que eu não posso
Deixar jamais de adorá-la;
D’ela, quem sabe se amor
Inda poderá mudá-la.
Ah! que assim é que ela engana
Peitos desapercebidos!
Vai sustentando esperanças
Inda apesar dos sentidos.
Que monstro sou eu tão fero!
Duvido, maior nascesse;
Pois entre lodos os homens
Só a mim Laura aborrece.
Mas não é esse o motivo,
E só minha dura estrela;
Logo quando nasceu Laura,
Por meu mal nasceu tão bela.
Em mim amor quis vingar-se
Da falta d’idolatria,
Pois a adorá-lo em seu templo
Eu não tinha entrado um dia.
Notou ele este desprezo,
E cheio d’enfado e d’ira
Aos olhos voa de Laura,
E de lá feroz me atira.
Foi debalde a resistência;
Depois das forças unidas,
Passou do peito à ofensa,
Encheu-m’o de mil feridas.
Vingado logo se ausenta.
Sem que mais o ódio deixasse;
Ah! que importava a vitória.
Se amor em Laura ficasse’
Desde então as cruéis dores
Sinto no rasgado peito;
E se Laura me não vale,
Toda a cura é sem efeito,
Mas d’ela que esperar posso,
Se gosta do meu tormento?
O meu mal é sem remédio,
Em vão procurá-lo intento
Eu bem sei que os seus desprezos
Servem de amor à vingança;
Mas talvez que inda ele mesmo
Castigue a sua esquivança.
Vale-se amor da beleza
Para castigar a ofensa;
Mas não quer que o instrumento
Do seu poder não se vença.
Enfim, coração, já agora
Destinei a minha sorte;
Ou eu hei de vencer Laura,
Ou me dará Laura a morte.