A FEIA

By Gustavo de Paula Teixeira

Tão feia! Vive quase sempre triste,

Mal disfarçando a angústia que a alanceia,

Porque, em verdade, a dor maior que existe

Para a mulher que é moça — é a de ser feia!

Ser feia é a morte! É inferno que resume

Tudo o que neste mundo mais crucia:

A sede, a fome, o desespero, o ciúme,

A ânsia de Hero, de Agar e de Maria!

Entre os espinhos desta vida, todos

Sentem às vezes um florir de rosas:

Não ela — a pobre vítima de apodos,

Que se oculta nas sombras silenciosas.

Se acaso vê nalgum espelho o rosto

Onde não brilha o mais fugaz encanto,

Empalidece de íntimo desgosto

E os seus olhos inundam-se de pranto!

Nunca ao braço de um noivo, prazenteira,

Há de passar a “mísera e mesquinha”

Coroada de botões de laranjeira,

Arrastando uma cauda de rainha!

E é tão radiante o dia do noivado!

Pensa no amor como num céu distante

Em que, dentro de um sonho arcoirisado,

Nunca há de entrar sua alma soluçante!

Jamais se lhe abrirão as portas d’oiro

Do Paraíso — aspiração infinda

Dos que na terra buscam o tesouro

Do qual o beijo é a pérola mais linda!

Mas se algum jovem pousa os olhos nela,

Sente-se envolta numa claridade

E a sua face em púrpuras revela

A inenarrável sensação que a invade!

Rindo, transfigurada de ternura,

Sonha, esquecendo acondição de lesma!

Sonha... mas quando acorda — que amargura! —

Pranteia de vergonha de si mesma!

Sorte cruel! Não pode ser amada!

E é uma cousa que punge e dilacera

Fazer a humana e lúgubre jornada

Sem ter um dia azul de primavera!

Dói-lhe ver a alegria dos felizes,

Dos que, a sonhar, no turbilhão do mundo.

Vão com sorrisos de aurorais matizes

Arrebatados num amor profundo!

À noite chora inconsolavelmente

Na pequenina câmara que habita,

E vê todo o porvir, como o presente,

Através de uma lágrima infinita!

Contudo, a sorte injusta, por esmola,

Vestiu aquela trágica pobreza

De um encanto que às vezes a consola:

O torrencial cabelo de princesa!

Ontem a vi. Errava numa aleia

De rosas brancas: e o seu vulto loiro,

Sob o cabelo solto, dava ideia

De uma mendiga envolta em manto d’oiro...