A FEIA
Tão feia! Vive quase sempre triste,
Mal disfarçando a angústia que a alanceia,
Porque, em verdade, a dor maior que existe
Para a mulher que é moça — é a de ser feia!
Ser feia é a morte! É inferno que resume
Tudo o que neste mundo mais crucia:
A sede, a fome, o desespero, o ciúme,
A ânsia de Hero, de Agar e de Maria!
Entre os espinhos desta vida, todos
Sentem às vezes um florir de rosas:
Não ela — a pobre vítima de apodos,
Que se oculta nas sombras silenciosas.
Se acaso vê nalgum espelho o rosto
Onde não brilha o mais fugaz encanto,
Empalidece de íntimo desgosto
E os seus olhos inundam-se de pranto!
Nunca ao braço de um noivo, prazenteira,
Há de passar a “mísera e mesquinha”
Coroada de botões de laranjeira,
Arrastando uma cauda de rainha!
E é tão radiante o dia do noivado!
Pensa no amor como num céu distante
Em que, dentro de um sonho arcoirisado,
Nunca há de entrar sua alma soluçante!
Jamais se lhe abrirão as portas d’oiro
Do Paraíso — aspiração infinda
Dos que na terra buscam o tesouro
Do qual o beijo é a pérola mais linda!
Mas se algum jovem pousa os olhos nela,
Sente-se envolta numa claridade
E a sua face em púrpuras revela
A inenarrável sensação que a invade!
Rindo, transfigurada de ternura,
Sonha, esquecendo acondição de lesma!
Sonha... mas quando acorda — que amargura! —
Pranteia de vergonha de si mesma!
Sorte cruel! Não pode ser amada!
E é uma cousa que punge e dilacera
Fazer a humana e lúgubre jornada
Sem ter um dia azul de primavera!
Dói-lhe ver a alegria dos felizes,
Dos que, a sonhar, no turbilhão do mundo.
Vão com sorrisos de aurorais matizes
Arrebatados num amor profundo!
À noite chora inconsolavelmente
Na pequenina câmara que habita,
E vê todo o porvir, como o presente,
Através de uma lágrima infinita!
Contudo, a sorte injusta, por esmola,
Vestiu aquela trágica pobreza
De um encanto que às vezes a consola:
O torrencial cabelo de princesa!
Ontem a vi. Errava numa aleia
De rosas brancas: e o seu vulto loiro,
Sob o cabelo solto, dava ideia
De uma mendiga envolta em manto d’oiro...