A FUNÇÃO, SÁTIRA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Musa, basta de rimar;

Já fazes esforços vãos,

Vai a lira pendurar;

Não sabem trêmulas mãos

Com as cordas acertar;

Já a velhice pesada

Te encheu de rugas a testa;

Já co’a dura mão gelada

Te pôs a marca funesta

Na madeixa branqueada;

Teu estro, falto de meios.

Já furta mais do que imita;

Vás dando airosos passeios,

E todo o povo te grita,

“Larga os vestidos alheios”:

Tua vaidade faz dó;

Cinges cascos enrugados,

Cheios de caruncho e pó.

Com velhos louros furtados

Do sepulcro de Boileau:

Leste por teu mal um dia

Este livro endiabrado;

Tal te pôs a fantasia,

Que o corpo velho e cansado

Inda te pede folia:

Depois que vistosa quinta

Te deu brilhante função.

Tu de discórdias faminta,

Vens com danada tenção

Pôr-me ao pé papel e tinta:

Bem me lembra o sitio ameno;

Quanto vi tenho presente;

Mas a ti é que eu condeno,

Que na ação mais inocente

Vás sempre deitar veneno:

Com felpudos chapelinhos,

Que estofada pluma ornava,

Por aprazíveis caminhos

Formoso esquadrão montava

Ajaezados burrinhos:

Marcha a tropa; amor a guia;

Tu que a mesma estrada trilhas,

Mostra-me em todo esse dia

Cousas, que não fossem filhas

Da inocência e da alegria?

Dizes que pobres donzelas

Vão os olhos enganando

Com postiças tranças belas,

E chitas de contrabando.

Que ainda são das adelas;

E que enquanto em tais desmanchos

A irmã, com títulos falsos,

Faz a glória destes ranchos,

Corre o irmão, c’os pés descalços,

Vendendo em Lisboa ganchos:

Dizes que um, o qual eu calo,

Assentando que as senhoras

Querem todas namorá-lo,

Cravando a furto as esporas,

Metia em obra o cavalo:

Que outro, falto de expressão,

Traficar de longe quis;

E com o lenço na mão.

Pagava o pobre nariz

Os crimes do coração:

Mas quanto atéquí exprimes,

Por mais que as cores lhe mudes,

Por mais que a teu jeito o rimes,

Creio que não são virtudes,

Porém também não são crimes:

No largo pátio apeados,

Que alva cal em torno pinta,

Dizes que de braços dados

Fomos passear na quinta,

Uns dos outros separados:

Falseando os olhos lumes.

Perdido o siso e o conselho,

Gritas em vivos queixumes:

“Onde estão, Portugal velho.

Onde estão os teus costumes?

“Onde os bons tempos estão

Da simples Lisboa antiga’?

Quando eia grande função

Ir a amiga ver a amiga,

E merendarem no chão!

“Quando a filha sem labéu

Ia cantar com trabalho,

E co’a inocência do céu:

— Senhor Francisco Bandalho,

Fita verde no chapéu! —

“Oh malditos os primeiros,

Que a idade d’ouro inventaram I

Que baniram pegureiros,

K nos campos misturaram

Os lobos com os cordeiros’ “

Qual, apertando alvos dedos,

Vai dizendo: “Ingrata, aprende

Destes passarinhos ledos;

Amor sua voz entende,

São de amor os seus segredos.

Qual co’a navalha aliada

Desigual cortiça aplana

D’antiga arvore copada,

E entalha, em letra romana,

O nome de sua amada;

Beija então as letras belas:

E de versos curioso,

Pondo brandos olhos n’elas,

Pede ao tronco venturoso,

Que as vá erguendo ás estrelas:

Dizes que por mais que eu pregue.

São baldados meus ofícios;

Que ninguém jamais consegue

Marchar sobre precipícios,

Sem que algum pé lhe escorregue:

Sentam-se entretanto os pães;

Vem gazeta, e rei da Prússia,

Vem os Estados Gerais;

Marcham com as tropas da Rússia

As tropas imperiais:

Um conta da Porta o estado;

Diz que das pazes o artigo

Vai mui pouco acautelado;

E tendo a filha em perigo,

Ri do turco descuidado:

Co’a pintada sobrancelha

Vai sozinha passeando

Boa mãe, sincera velha;

Dos esgalhos resguardando.

Ora a peliça, ora a telha;

Pondo contra a luz a mão,

E crendo que n’esta rua

Está São Sebastião,

De Vênus à estatua nua

Faz mesura e oração;

Em tanto as Vênus melhores,

Do que esta, que a arte fez;

Escutam ternos amores,

Que estão jurando a seus pés

Felizes adoradores:

Basta, musa, pare aí

Esse montão inimigo

De mentiras, que te ouvi;

Tu sempre andaste comigo.

Mas eu nada d’ isso vi;

Foi por meu braço levada

Uma das ditas donzelas;

Feia, mas a estudos dada;

E sobre doutas novelas

De tenros anos criada.

Levantou sábias questões,

Que ela mesma resolveu;

Fez profundas reflexões;

E por fim me prometeu

Ler-me as suas traduções;

Jurou que aprendeu gramática,

E que hoje os livros não fecha

Da infalível matemática;

E quer ver se o pai a deixa

Ir na maquina aerostática:

Só de nós podes falar;

Dos mais, como hás de saber.

Se vendo-os no bosque entrar,

Quando os tornamos a ver

Foi ás horas de jantar’

Dizes que é falso este nome;

Que foi jantar de matula.

Onde só quem furta, come;

Juras que no aliar da gula

Foste vítima da fome;

Mas da lua sem razão

Eu vi prova verdadeira;

De hábil velha a crespa mão

Foi atacando a algibeira

C’os sobejos da função:

Se Nize, que faz estudo

De afetar moral virtude,

Com ar austero e sisudo

Faz criminosa saúde

Com os olhos no seu Tudo;

Se o chichisbéu seu visinho

Lhe vai afagando os dedos

Do tenro, surdo pézinho,

E por saber-lhe os segredos

Lhe bebe o resto do vinho;

Se mau trinchante novato,

Mostrando anel de brilhantes,

Mas errando a força e o tato.

Com riso dos circunstantes

Trinchou o peru e o prato;

Se gordo beirão morgado,

 quem seus canhões afrontam,

E em par de meias bordado,

Traidores vincos nos contam

As vezes que as tem calçado;

Seguindo a Nerina o trilho.

Lhe está dizendo que a adora;

Que de fartos pães é filho,

E (pie venha ser senhora

De vinte moios de milho:

Se este infeliz namorado

Bordou de arroz o vestido;

Se duro garfo aguçado,

Na noviça mão metido,

Lhe deixa um beiço espetado;

Tudo isto são meros nadas;

E toda a indulgência pedem

Mesas em barulho armadas;

Piores cousas sucedem

Nas que julgas delicadas:

Eu já vi boçal criada,

Que o fatal segredo espalha,

De estar um moço na escada.

Que vem buscar a toalha,

Se já está desocupada:

Deixa pois tenção ruim;

Foi um sofrível jantar;

E depois que ele deu fim,

Foi mau ver contradançar

Toda a tarde no jardim?

Destros pares perfilados.

Que o brilhante enredo tecem,

Deram prontos e acertados,

Um prazer, que só conhecem

Os corações delicados:

Vênus mesma não fizera

Jogos mais encantadores,

Quando dizem que descera

Entre as graças e os amores

Sobre os jardins de Citera:

E que mal te fez então,

No furor das contradanças,

Ver parceiro cortesão

Ir levar à dama as tranças,

Que lhe caíram no chão?

Das três velhas que dançaram,

Se uma gritou de repente.

Foi porque os pés a entregaram,

Quando desgraçadamente

Os dois calos se encontraram:

E se acaso em ti não ha

Gosto por tal passatempo,

Enfreia essa língua má;

São modas que vem c’o tempo,

O tempo as acabará:

Não são os gostos eternos;

Teve o Passapié amigos,

Ainda não ha quinze invernos;

Foi a glória dos antigos.

Hoje e mofa dos modernos:

Debalde em ralhar te cansas;

Deixa ao tempo os seus caminhos;

Ir-se-ão poupas, ir-se-ão tranças,

Histéricos, josezinhos,

Feitiços, e contradanças:

Em bandolim marchetado,

Os ligeiros dedos prontos,

Louro paralta adamado.

Foi depois tocar jjor pontos

O doce londum chorado:

Se Mareia se bamboleia

Neste inocente exercício;

Se os quadris saracoteia;

Quem sabe se traz cilício,

E por virtude os meneia?

Não sentencies de estalo;

Tem as danças fim decente;

Ama o pai; mas, por deixá-lo,

Dança a donzela inocente

Diante de São Gonçalo:

Cobrando o pardo dinheiro,

De que o povo é tributário,

Velho preto prazenteiro

Para glória do rosário.

Remexe o corpo e o pandeiro:

Em solene procissão

Une a frieleira casta

O fandango e a devoção;

Mas enfim de exemplos basta,

E tornemos à questão:

Já dentre as verdes murteiras,

Em suavíssimos assentos,

Com segundas e primeiras,

Sobem nas asas dos ventos

As modinhas brasileiras:

E que mal te fez na porta,

Pai que ronda de quadrilha,

Cabeleira loura e torta.

Dizer que peçam à filha

Um bocado de Comporta?

Com que graça vem trazidas,

Fingindo-se envergonhadas.

Tenras faces incendidas.

Por destros galgos achadas

No jogo das escondidas?

Musa, abre os olhos escassos,

Não te enganes co’a aparência;

Se não torcesses os passos.

Acharias a inocência

Té no jogo dos abraços:

Marília as linhas espalha;

E a cândida mão sem luva

Tão destramente as baralha,

Que sempre saiu viúva

Santa velha, que não ralha:

Tira a este brinco o véu,

Útil fim verás mil vezes;

Dali sai o chichisbéu;

Dali se levam as rezes

Aos altares de Himeneu:

E se co’a língua danada

Sem motivo envenenaste

A tarde tão bem passada,

Com menos causa gritaste

Á noite na retirada:

Se a pé, dando o josezinho

Escoltou Alcino ledo

A Márcia todo o caminho,

Foi porque ela tinha medo

Que lhe caísse o burrinho:

Todas contentes chegaram;

Nenhuma chegou moída;

E depois que se apearam,

Ali mesmo, à despedida.

Outra função ajustaram:

Vês, musa, como atropelas

A inocência das funções?

Confessa que em todas elas

O mal não vem das ações.

Vem de quem julga mal d’elas:

Segue outra filosofia;

Nem sempre seriedade,

Como nem sempre folia;

Na discreta variedade

Está do mundo a harmonia:

Bravo inglês sanguinolento,

Depois de deixar votado.

Que se afronte o mar e o vento,

Cuidas que liça fechado

Nas salas do parlamento?

Se pela pátria se cansa,

Também prazeres deseja;

De manhã assusta a França;

Arrota à noite cerveja.

Canta mal. e contradança:

Trata pois de te emendar,

E deixa vidas alheias;

Que o povo está a zombar

Enquanto te incham as veias

Com a força de pregar:

Thomaz dos Pós (’ fez missões;

Ajuntou gente infinita;

Mas inda em negros vergões

Traz nos artelhos escrita

A paga dos seus sermões:

Toma enfim a lição minha;

Mas se estás na mesma frágua

D’aquela mulher mesquinha,

Que alçando a mão fora d’água,

Fez c’os dedos tesourinha;

Teme o raivoso furor

Do exercito dos paraltas,

Que em armas se vai já pôr;

Também o das poupas altas.

Que é inimigo pior:

Guardam no peito ódio velho

Por motivos semelhantes;

E se crês no meu conselho,

Mata-lhe antes os amantes,

Quebra-lhe o melhor espelho,

Proíbe-lhe as convulsões;

Abre-lhe ao cãozinho as veias,

Que para tudo ha perdões;

Mas nunca lhe chames feias.

Nem lhe entendas co’as funções.