A FUNÇÃO, SÁTIRA
Musa, basta de rimar;
Já fazes esforços vãos,
Vai a lira pendurar;
Não sabem trêmulas mãos
Com as cordas acertar;
Já a velhice pesada
Te encheu de rugas a testa;
Já co’a dura mão gelada
Te pôs a marca funesta
Na madeixa branqueada;
Teu estro, falto de meios.
Já furta mais do que imita;
Vás dando airosos passeios,
E todo o povo te grita,
“Larga os vestidos alheios”:
Tua vaidade faz dó;
Cinges cascos enrugados,
Cheios de caruncho e pó.
Com velhos louros furtados
Do sepulcro de Boileau:
Leste por teu mal um dia
Este livro endiabrado;
Tal te pôs a fantasia,
Que o corpo velho e cansado
Inda te pede folia:
Depois que vistosa quinta
Te deu brilhante função.
Tu de discórdias faminta,
Vens com danada tenção
Pôr-me ao pé papel e tinta:
Bem me lembra o sitio ameno;
Quanto vi tenho presente;
Mas a ti é que eu condeno,
Que na ação mais inocente
Vás sempre deitar veneno:
Com felpudos chapelinhos,
Que estofada pluma ornava,
Por aprazíveis caminhos
Formoso esquadrão montava
Ajaezados burrinhos:
Marcha a tropa; amor a guia;
Tu que a mesma estrada trilhas,
Mostra-me em todo esse dia
Cousas, que não fossem filhas
Da inocência e da alegria?
Dizes que pobres donzelas
Vão os olhos enganando
Com postiças tranças belas,
E chitas de contrabando.
Que ainda são das adelas;
E que enquanto em tais desmanchos
A irmã, com títulos falsos,
Faz a glória destes ranchos,
Corre o irmão, c’os pés descalços,
Vendendo em Lisboa ganchos:
Dizes que um, o qual eu calo,
Assentando que as senhoras
Querem todas namorá-lo,
Cravando a furto as esporas,
Metia em obra o cavalo:
Que outro, falto de expressão,
Traficar de longe quis;
E com o lenço na mão.
Pagava o pobre nariz
Os crimes do coração:
Mas quanto atéquí exprimes,
Por mais que as cores lhe mudes,
Por mais que a teu jeito o rimes,
Creio que não são virtudes,
Porém também não são crimes:
No largo pátio apeados,
Que alva cal em torno pinta,
Dizes que de braços dados
Fomos passear na quinta,
Uns dos outros separados:
Falseando os olhos lumes.
Perdido o siso e o conselho,
Gritas em vivos queixumes:
“Onde estão, Portugal velho.
Onde estão os teus costumes?
“Onde os bons tempos estão
Da simples Lisboa antiga’?
Quando eia grande função
Ir a amiga ver a amiga,
E merendarem no chão!
“Quando a filha sem labéu
Ia cantar com trabalho,
E co’a inocência do céu:
— Senhor Francisco Bandalho,
Fita verde no chapéu! —
“Oh malditos os primeiros,
Que a idade d’ouro inventaram I
Que baniram pegureiros,
K nos campos misturaram
Os lobos com os cordeiros’ “
Qual, apertando alvos dedos,
Vai dizendo: “Ingrata, aprende
Destes passarinhos ledos;
Amor sua voz entende,
São de amor os seus segredos.
Qual co’a navalha aliada
Desigual cortiça aplana
D’antiga arvore copada,
E entalha, em letra romana,
O nome de sua amada;
Beija então as letras belas:
E de versos curioso,
Pondo brandos olhos n’elas,
Pede ao tronco venturoso,
Que as vá erguendo ás estrelas:
Dizes que por mais que eu pregue.
São baldados meus ofícios;
Que ninguém jamais consegue
Marchar sobre precipícios,
Sem que algum pé lhe escorregue:
Sentam-se entretanto os pães;
Vem gazeta, e rei da Prússia,
Vem os Estados Gerais;
Marcham com as tropas da Rússia
As tropas imperiais:
Um conta da Porta o estado;
Diz que das pazes o artigo
Vai mui pouco acautelado;
E tendo a filha em perigo,
Ri do turco descuidado:
Co’a pintada sobrancelha
Vai sozinha passeando
Boa mãe, sincera velha;
Dos esgalhos resguardando.
Ora a peliça, ora a telha;
Pondo contra a luz a mão,
E crendo que n’esta rua
Está São Sebastião,
De Vênus à estatua nua
Faz mesura e oração;
Em tanto as Vênus melhores,
Do que esta, que a arte fez;
Escutam ternos amores,
Que estão jurando a seus pés
Felizes adoradores:
Basta, musa, pare aí
Esse montão inimigo
De mentiras, que te ouvi;
Tu sempre andaste comigo.
Mas eu nada d’ isso vi;
Foi por meu braço levada
Uma das ditas donzelas;
Feia, mas a estudos dada;
E sobre doutas novelas
De tenros anos criada.
Levantou sábias questões,
Que ela mesma resolveu;
Fez profundas reflexões;
E por fim me prometeu
Ler-me as suas traduções;
Jurou que aprendeu gramática,
E que hoje os livros não fecha
Da infalível matemática;
E quer ver se o pai a deixa
Ir na maquina aerostática:
Só de nós podes falar;
Dos mais, como hás de saber.
Se vendo-os no bosque entrar,
Quando os tornamos a ver
Foi ás horas de jantar’
Dizes que é falso este nome;
Que foi jantar de matula.
Onde só quem furta, come;
Juras que no aliar da gula
Foste vítima da fome;
Mas da lua sem razão
Eu vi prova verdadeira;
De hábil velha a crespa mão
Foi atacando a algibeira
C’os sobejos da função:
Se Nize, que faz estudo
De afetar moral virtude,
Com ar austero e sisudo
Faz criminosa saúde
Com os olhos no seu Tudo;
Se o chichisbéu seu visinho
Lhe vai afagando os dedos
Do tenro, surdo pézinho,
E por saber-lhe os segredos
Lhe bebe o resto do vinho;
Se mau trinchante novato,
Mostrando anel de brilhantes,
Mas errando a força e o tato.
Com riso dos circunstantes
Trinchou o peru e o prato;
Se gordo beirão morgado,
 quem seus canhões afrontam,
E em par de meias bordado,
Traidores vincos nos contam
As vezes que as tem calçado;
Seguindo a Nerina o trilho.
Lhe está dizendo que a adora;
Que de fartos pães é filho,
E (pie venha ser senhora
De vinte moios de milho:
Se este infeliz namorado
Bordou de arroz o vestido;
Se duro garfo aguçado,
Na noviça mão metido,
Lhe deixa um beiço espetado;
Tudo isto são meros nadas;
E toda a indulgência pedem
Mesas em barulho armadas;
Piores cousas sucedem
Nas que julgas delicadas:
Eu já vi boçal criada,
Que o fatal segredo espalha,
De estar um moço na escada.
Que vem buscar a toalha,
Se já está desocupada:
Deixa pois tenção ruim;
Foi um sofrível jantar;
E depois que ele deu fim,
Foi mau ver contradançar
Toda a tarde no jardim?
Destros pares perfilados.
Que o brilhante enredo tecem,
Deram prontos e acertados,
Um prazer, que só conhecem
Os corações delicados:
Vênus mesma não fizera
Jogos mais encantadores,
Quando dizem que descera
Entre as graças e os amores
Sobre os jardins de Citera:
E que mal te fez então,
No furor das contradanças,
Ver parceiro cortesão
Ir levar à dama as tranças,
Que lhe caíram no chão?
Das três velhas que dançaram,
Se uma gritou de repente.
Foi porque os pés a entregaram,
Quando desgraçadamente
Os dois calos se encontraram:
E se acaso em ti não ha
Gosto por tal passatempo,
Enfreia essa língua má;
São modas que vem c’o tempo,
O tempo as acabará:
Não são os gostos eternos;
Teve o Passapié amigos,
Ainda não ha quinze invernos;
Foi a glória dos antigos.
Hoje e mofa dos modernos:
Debalde em ralhar te cansas;
Deixa ao tempo os seus caminhos;
Ir-se-ão poupas, ir-se-ão tranças,
Histéricos, josezinhos,
Feitiços, e contradanças:
Em bandolim marchetado,
Os ligeiros dedos prontos,
Louro paralta adamado.
Foi depois tocar jjor pontos
O doce londum chorado:
Se Mareia se bamboleia
Neste inocente exercício;
Se os quadris saracoteia;
Quem sabe se traz cilício,
E por virtude os meneia?
Não sentencies de estalo;
Tem as danças fim decente;
Ama o pai; mas, por deixá-lo,
Dança a donzela inocente
Diante de São Gonçalo:
Cobrando o pardo dinheiro,
De que o povo é tributário,
Velho preto prazenteiro
Para glória do rosário.
Remexe o corpo e o pandeiro:
Em solene procissão
Une a frieleira casta
O fandango e a devoção;
Mas enfim de exemplos basta,
E tornemos à questão:
Já dentre as verdes murteiras,
Em suavíssimos assentos,
Com segundas e primeiras,
Sobem nas asas dos ventos
As modinhas brasileiras:
E que mal te fez na porta,
Pai que ronda de quadrilha,
Cabeleira loura e torta.
Dizer que peçam à filha
Um bocado de Comporta?
Com que graça vem trazidas,
Fingindo-se envergonhadas.
Tenras faces incendidas.
Por destros galgos achadas
No jogo das escondidas?
Musa, abre os olhos escassos,
Não te enganes co’a aparência;
Se não torcesses os passos.
Acharias a inocência
Té no jogo dos abraços:
Marília as linhas espalha;
E a cândida mão sem luva
Tão destramente as baralha,
Que sempre saiu viúva
Santa velha, que não ralha:
Tira a este brinco o véu,
Útil fim verás mil vezes;
Dali sai o chichisbéu;
Dali se levam as rezes
Aos altares de Himeneu:
E se co’a língua danada
Sem motivo envenenaste
A tarde tão bem passada,
Com menos causa gritaste
Á noite na retirada:
Se a pé, dando o josezinho
Escoltou Alcino ledo
A Márcia todo o caminho,
Foi porque ela tinha medo
Que lhe caísse o burrinho:
Todas contentes chegaram;
Nenhuma chegou moída;
E depois que se apearam,
Ali mesmo, à despedida.
Outra função ajustaram:
Vês, musa, como atropelas
A inocência das funções?
Confessa que em todas elas
O mal não vem das ações.
Vem de quem julga mal d’elas:
Segue outra filosofia;
Nem sempre seriedade,
Como nem sempre folia;
Na discreta variedade
Está do mundo a harmonia:
Bravo inglês sanguinolento,
Depois de deixar votado.
Que se afronte o mar e o vento,
Cuidas que liça fechado
Nas salas do parlamento?
Se pela pátria se cansa,
Também prazeres deseja;
De manhã assusta a França;
Arrota à noite cerveja.
Canta mal. e contradança:
Trata pois de te emendar,
E deixa vidas alheias;
Que o povo está a zombar
Enquanto te incham as veias
Com a força de pregar:
Thomaz dos Pós (’ fez missões;
Ajuntou gente infinita;
Mas inda em negros vergões
Traz nos artelhos escrita
A paga dos seus sermões:
Toma enfim a lição minha;
Mas se estás na mesma frágua
D’aquela mulher mesquinha,
Que alçando a mão fora d’água,
Fez c’os dedos tesourinha;
Teme o raivoso furor
Do exercito dos paraltas,
Que em armas se vai já pôr;
Também o das poupas altas.
Que é inimigo pior:
Guardam no peito ódio velho
Por motivos semelhantes;
E se crês no meu conselho,
Mata-lhe antes os amantes,
Quebra-lhe o melhor espelho,
Proíbe-lhe as convulsões;
Abre-lhe ao cãozinho as veias,
Que para tudo ha perdões;
Mas nunca lhe chames feias.
Nem lhe entendas co’as funções.