A gota d’orvalho

By Delminda Silveira de Sousa

Na pétala da branca rosa,

caíra a gota mimosa

do fresco orvalho da aurora;

a nuvem que a derramou,

já pelo Céu deslizou,

e além, no ar se evapora.

A gota d’orvalho pura

do sol aos raios fulgura

na branca pétala da flor;

por entre as rosas, fagueira,

passa avezinha ligeira,

em busca do mel de amor.

À rosa pálida e bela,

disse: — “dá-me, ó flor singela,

a doçura do teu seio;

dá-me o teu grato perfume...

oh! dá-me o mel que resume

o amor — a vida que anseio”.

Mas a branca rosa triste

volve assim: — “o que pediste,

ai! não há no seio meu!

aqui — só tenho amargura;

e, entre espinhos, esta pura,

doce lágrima do Céu!”

— Pois dá-me a gota mimosa,

que no teu seio, amorosa,

foi docemente pousar;

sobre a minha asa doirada

levá-la-ei perfumada

ao seio imenso do mar!

Então, a brisa fagueira

fez o galho da roseira,

suavemente bulir;

e a pura gota mimosa,

da branca pétala da rosa,

foi n’asa d’ouro cair.

Ligeira, a linda avezinha,

ao mar o voo encaminha,

e sobre as ondas pairou:

a asas d’ouro agitando,

no mar, que gemia brando,

a pura gota entornou.

Rara concha nacarina

como a pétala purpurina

de uma flor que o sol abrira,

à doce gota d’orvalho

deu no seu seio o agasalho

que em vão à rosa pedira.

Depois, os dias passaram;

as águas do mar gelaram,

o sol, depois, as deliu

Baixa a maré, volve a cheia,

e da praia sobre a areia

que linda concha se viu!

Era corada e mimosa

como as pétalas de uma rosa,

como uns lábios de criança;

tinha no seio guardada

uma perla delicada,

— do Céu formosa lembrança!

Ah! que bendito agasalho

não teve a gota d’orvalho

da linda concha no seio,

que numa perla preciosa

se transformou, graciosa,

das salsas águas no meio!

Só este pranto que verte

minh’alma, não se converte

em lindas perlas... oh! não!

— que a minha lágrima pura,

embalde, embalde procura

a concha de um coração!