A GRACIOSA BRITES, DE QUEM JA FALLAMOS POR COMER HUM CAYJU, QUE VINHA PARA O P...

By Gregório de Matos Guerra

Se comestes por regalo,

Brites, o caju vermelho,

tomastes mui mau conselho,

e temo, que heis de amargá-lo

no pomo há de ter abalo

toda a vossa geração,

pois vós sem comparação

gulosa à Eva excedestes,

quando só por só comestes,

sem dar parte ao vosso Adão.

Pôs-vos Deus Eva segunda

nesse novo paraíso,

fiando de vosso siso,

que fosses menos imunda:

vós como mais moribunda,

mais fraca, e mais alfenim

comestes o pomo enfim,

e por lhe meter o dente

não fugistes da serpente,

e andais fugindo de mim.

Sinto amarguissimamente,

que visto o vosso pecado

hei de sair condenado,

como se fosse a serpente:

do Vigário era o presente,

e meu o caju do meio,

e assim com razão receio,

que pelo vosso pecar,

hei de sair a arrastar,

como a serpente lhe veio.

Eu não vos persuadi,

para haveres de o comer,

que Deusa havíeis de ser,

pois Deusa sempre vos vi:

mas vendo o caju rubi,

gulosa, e arremessada

lhe fostes dar a dentada,

e diz a lei com a glosa,

que pois fostes a gulosa,

haveis de ser arrastada.