A GUERRA, SÁTIRA OFERECIDA AO VISCONDE VILA-NOTA DE CERVEIRA, DEPOIS MARQUÊS DE ...
Musa, pois cuidas que é sal
O fel de autores perversos,
E o mundo levas a mal,
Porque leste quatro versos
De Horácio e de Juvenal:
Agora os verás queimar,
Já que em vão os fecho, e os sumo;
E leve o volúvel ar.
De envolta c’o turvo fumo,
O teu furor de rimar:
Se tu de ferir não cessas,
Que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
Que importa dá-las ao vento.
Se podem achar cabeças?
Tendo as sátiras por boas,
Do Parnaso nos dois cumes,
Em hora negra revoas;
Tu dás golpes nos costumes,
E cuidam que é nas pessoas:
Deixa esquipar Inglaterra
Cem naus de alterosa popa;
Deixa regar sangue a terra;
Que te importa que na Europa
Haja paz, ou haja guerra?
Deixa que os bons e a gentalha
Brigar ao Casaca vão;
E que enquanto a turba ralha.
Vá recebendo o balcão
Os despojos da batalha:
Que tens tu, que ornada história
Diga que peitos ferinos.
Em sanguinosa vitória,
Inumanos, assassinos,
São do mundo a honra e a glória?
As guerras precisas são;
N’elas a paz se assegura;
Não metas em tudo a mão,
Musa louca; por ventura
Encomendam-te o sermão?
Deixa que o roto taful,
A quem na pátria foi mal,
Vá cruzar de norte a sul;
Cubram-lhe o corpo venal
Três palmos de pano azul:
Deixa que em tarimba estreita
O desperte a aurora ingrata;
Qu’o duro cabo, que o espreita,
O faça, ao som da chibata.
Virar à esquerda e à direita:
Deixa-lhe em sangue envolver
Duro pão, que lhe dá Marte;
E para poder viver,
Deixa-lhe aprender esta arte
De matar e de morrer:
Vá junto à queimada zona
Arvorar, em rotos muros,
O estandarte de Belona;
Calejem-lhe os ombros duros
As correias da patrona:
Voe-lhe aos ares um pé;
Sobre o outro, com valor,
A Plutão cem mortos dê;
Arda de raiva e furor,
Sem nunca saber porque:
Sem causa entre dentes trazes
A grande arte das batalhas;
Murmuras dos seus sequazes;
E quando da guerra ralhas,
Outra com a língua fazes:
Dizes que uma guerra acesa
É teatro de impiedade;
Chamas-lhe crua fereza,
Flagelo da humanidade,
Triste horror da natureza:
Pintas um bravo guerreiro,
E a meus olhos vens mostrá-lo,
Para ferir mais ligeiro,
Metendo o ardente cavalo
Sobre o exangue companheiro:
A um lado e a outro lado
A morte mandando vai
Co sanguinoso terçado,
Até que ele mesmo cai,
De um pelouro atravessado:
Co’as cabeças abatidas
Vão de ferro vil marcados.
Maldizendo as tristes vidas,
Mil cativos maniatados.
Vertendo sangue as feridas;
Entre horrorosos troféus
O general desumano
Manda falso incenso aos céus;
E de espalhar sangue humano
Vai dando louvor a Deus:
Dizes que se compra quina,
Porque altas febres desterra;
E que em colégios se ensina,
Em uma aula, a arte da guerra,
Em outra, a da medicina;
Que no trio, vasto norte.
Cem Boerhaves eloquentes
Enchem de ouro o cofre forte,
Porque perdidos doentes
Arrancam das mãos da morte:
Que ai li mesmo grosso fruto
Colhe Saxe entre os soldados,
Porque em minado reduto
Fez voar despedaçados
Dez mil homens num minuto:
Tirando então consequências,
Zombar dos homens procuras,
E das suas vans ciências;
Sempre cheios de loucuras,
E cheios de incoerências:
Se a paz, em dias felizes,
À cara pátria os conduz.
Dizes que estes infelizes
Mostram, rindo, os peitos nus,
Cortados de cicatrizes:
Que este reconta aos parentes
Como em perigoso passo.
Zunindo balas ardentes,
Uma lhe quebrou um braço,
Outra lhe levou os dentes:
Que outro, da perna cortada
Abençoa a horrível chaga.
Porque ao peito pendurada
Trará algum dia, em paga.
Inútil fita encarnada:
Dizes que entre os animais
Proíbe guerras o instinto;
E que surdo a tristes ais.
Vês com horror o homem tinto
No sangue dos seus iguais
Musa, não discorres bem;
Pois se uns com os outros cabem,
E juntos a um pasto vem,
E só porque inda não sabem
A virtude que o ouro tem:
Por preciosos metais
Não põem peito a bravos mares;
Traze exemplos mais iguais;
Sábios homens não compares
Com os brutos animais;
Trazem focinho no chão,
E nós sempre ao alto olhamos;
Temos em dote a razão;
E por isso levantamos
Uns contra os outros a mão:
Se os homens se não matassem,
E impunemente crescessem,
Pôde ser que não achassem
Nem fontes de que bebessem,
Nem campos que semeassem:
Em vão febres inimigas
Os mirrados corpos gastam;
Tornam as forças antigas;
E está visto que não bastam
Nem malignas, nem bexigas:
Travem-se cruas batalhas,
Arrasem batidos muros
Os soldados de quem ralhas;
Adornem-lhes os membros duros
Grossas, tresdobradas malhas:
Sabe que mil males faz
A mole tranquilidade
E que em seu seio nos traz
Brando luxo e ociosidade,
Danosos filhos da paz:
Que nos causa ocultos danos,
Fingindo rosto inocente;
Que a guerra de largos anos
Conservou antigamente
A inocência dos romanos:
Que enquanto ao duro exercido
Eram seus corpos afeitos,
E da paz não houve indicio,
Não lavrava nos seus peitos
Mortal peçonha do vicio:
Não havia mãos profanas;
Eram suas almas sãs;
E nas símplices cabanas
Fiavam grosseiras lãs
As castas moças romanas:
Fez Jano os povos amigos,
Inerte ócio os peitos toma;
C’os combates, c’os perigos
Foram-se, ó austera Roma,
Os teus costumes antigos:
Entre as nações sossegadas
Sabe que o ócio arraigado,
E as paixões em paz criadas,
Fazem mais sangue no estado,
Do que os gumes das espadas:
Deixa pois haver queixumes;
Metam-se armadas no fundo,
Acenda a guerra os seus lumes;
Que assim tornará ao mundo
A inocência dos costumes:
A intacta fé, a verdade
Venham com as baterias;
Desça do céu a amizade;
E torne a dourar os dias
De Saturno a antiga idade:
Musa vã, que em ti não cabes,
Os guerreiros arraiais
Nem vituperes, nem gabes;
E não te metas jamais
A falar no que não sabes:
Haja bloqueio, haja assédio,
O sangue humano espalhado
Nem sempre te cause tédio;
Que em boa dose tomado,
Té o veneno é remédio:
Deixa ir o mundo seu passo;
E contra si mesmo armado
Corte c’um braço o outro braço;
Põe na boca um cadeado,
Faze o que eu mil vezes faço:
Emprega melhor teu canto;
E pois queres que te louvem,
Mão das sátiras levanto;
Poesias que os homens ouvem,
Um com riso, e cem com pranto:
De bons anos na função
Leva a Filis fria glosa;
Beija-lhe a nevada mão;
Chama-lhe Vênus formosa,
Inda que seja um dragão:
Éclogas também dão fama;
Falia em surrão, e em curral;
E do vulgo os olhos chama
Nas paredes do arsenal,
Cheia de aplauso e de lama:
De galegos rodeada
Aos aristarcos escapa;
Té que das tendas chamada
Sejas protetora capa
De manteiga e marmelada.