A GUERRA, SÁTIRA OFERECIDA AO VISCONDE VILA-NOTA DE CERVEIRA, DEPOIS MARQUÊS DE ...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Musa, pois cuidas que é sal

O fel de autores perversos,

E o mundo levas a mal,

Porque leste quatro versos

De Horácio e de Juvenal:

Agora os verás queimar,

Já que em vão os fecho, e os sumo;

E leve o volúvel ar.

De envolta c’o turvo fumo,

O teu furor de rimar:

Se tu de ferir não cessas,

Que serve ser bom o intento?

Mais carapuças não teças;

Que importa dá-las ao vento.

Se podem achar cabeças?

Tendo as sátiras por boas,

Do Parnaso nos dois cumes,

Em hora negra revoas;

Tu dás golpes nos costumes,

E cuidam que é nas pessoas:

Deixa esquipar Inglaterra

Cem naus de alterosa popa;

Deixa regar sangue a terra;

Que te importa que na Europa

Haja paz, ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha

Brigar ao Casaca vão;

E que enquanto a turba ralha.

Vá recebendo o balcão

Os despojos da batalha:

Que tens tu, que ornada história

Diga que peitos ferinos.

Em sanguinosa vitória,

Inumanos, assassinos,

São do mundo a honra e a glória?

As guerras precisas são;

N’elas a paz se assegura;

Não metas em tudo a mão,

Musa louca; por ventura

Encomendam-te o sermão?

Deixa que o roto taful,

A quem na pátria foi mal,

Vá cruzar de norte a sul;

Cubram-lhe o corpo venal

Três palmos de pano azul:

Deixa que em tarimba estreita

O desperte a aurora ingrata;

Qu’o duro cabo, que o espreita,

O faça, ao som da chibata.

Virar à esquerda e à direita:

Deixa-lhe em sangue envolver

Duro pão, que lhe dá Marte;

E para poder viver,

Deixa-lhe aprender esta arte

De matar e de morrer:

Vá junto à queimada zona

Arvorar, em rotos muros,

O estandarte de Belona;

Calejem-lhe os ombros duros

As correias da patrona:

Voe-lhe aos ares um pé;

Sobre o outro, com valor,

A Plutão cem mortos dê;

Arda de raiva e furor,

Sem nunca saber porque:

Sem causa entre dentes trazes

A grande arte das batalhas;

Murmuras dos seus sequazes;

E quando da guerra ralhas,

Outra com a língua fazes:

Dizes que uma guerra acesa

É teatro de impiedade;

Chamas-lhe crua fereza,

Flagelo da humanidade,

Triste horror da natureza:

Pintas um bravo guerreiro,

E a meus olhos vens mostrá-lo,

Para ferir mais ligeiro,

Metendo o ardente cavalo

Sobre o exangue companheiro:

A um lado e a outro lado

A morte mandando vai

Co sanguinoso terçado,

Até que ele mesmo cai,

De um pelouro atravessado:

Co’as cabeças abatidas

Vão de ferro vil marcados.

Maldizendo as tristes vidas,

Mil cativos maniatados.

Vertendo sangue as feridas;

Entre horrorosos troféus

O general desumano

Manda falso incenso aos céus;

E de espalhar sangue humano

Vai dando louvor a Deus:

Dizes que se compra quina,

Porque altas febres desterra;

E que em colégios se ensina,

Em uma aula, a arte da guerra,

Em outra, a da medicina;

Que no trio, vasto norte.

Cem Boerhaves eloquentes

Enchem de ouro o cofre forte,

Porque perdidos doentes

Arrancam das mãos da morte:

Que ai li mesmo grosso fruto

Colhe Saxe entre os soldados,

Porque em minado reduto

Fez voar despedaçados

Dez mil homens num minuto:

Tirando então consequências,

Zombar dos homens procuras,

E das suas vans ciências;

Sempre cheios de loucuras,

E cheios de incoerências:

Se a paz, em dias felizes,

À cara pátria os conduz.

Dizes que estes infelizes

Mostram, rindo, os peitos nus,

Cortados de cicatrizes:

Que este reconta aos parentes

Como em perigoso passo.

Zunindo balas ardentes,

Uma lhe quebrou um braço,

Outra lhe levou os dentes:

Que outro, da perna cortada

Abençoa a horrível chaga.

Porque ao peito pendurada

Trará algum dia, em paga.

Inútil fita encarnada:

Dizes que entre os animais

Proíbe guerras o instinto;

E que surdo a tristes ais.

Vês com horror o homem tinto

No sangue dos seus iguais

Musa, não discorres bem;

Pois se uns com os outros cabem,

E juntos a um pasto vem,

E só porque inda não sabem

A virtude que o ouro tem:

Por preciosos metais

Não põem peito a bravos mares;

Traze exemplos mais iguais;

Sábios homens não compares

Com os brutos animais;

Trazem focinho no chão,

E nós sempre ao alto olhamos;

Temos em dote a razão;

E por isso levantamos

Uns contra os outros a mão:

Se os homens se não matassem,

E impunemente crescessem,

Pôde ser que não achassem

Nem fontes de que bebessem,

Nem campos que semeassem:

Em vão febres inimigas

Os mirrados corpos gastam;

Tornam as forças antigas;

E está visto que não bastam

Nem malignas, nem bexigas:

Travem-se cruas batalhas,

Arrasem batidos muros

Os soldados de quem ralhas;

Adornem-lhes os membros duros

Grossas, tresdobradas malhas:

Sabe que mil males faz

A mole tranquilidade

E que em seu seio nos traz

Brando luxo e ociosidade,

Danosos filhos da paz:

Que nos causa ocultos danos,

Fingindo rosto inocente;

Que a guerra de largos anos

Conservou antigamente

A inocência dos romanos:

Que enquanto ao duro exercido

Eram seus corpos afeitos,

E da paz não houve indicio,

Não lavrava nos seus peitos

Mortal peçonha do vicio:

Não havia mãos profanas;

Eram suas almas sãs;

E nas símplices cabanas

Fiavam grosseiras lãs

As castas moças romanas:

Fez Jano os povos amigos,

Inerte ócio os peitos toma;

C’os combates, c’os perigos

Foram-se, ó austera Roma,

Os teus costumes antigos:

Entre as nações sossegadas

Sabe que o ócio arraigado,

E as paixões em paz criadas,

Fazem mais sangue no estado,

Do que os gumes das espadas:

Deixa pois haver queixumes;

Metam-se armadas no fundo,

Acenda a guerra os seus lumes;

Que assim tornará ao mundo

A inocência dos costumes:

A intacta fé, a verdade

Venham com as baterias;

Desça do céu a amizade;

E torne a dourar os dias

De Saturno a antiga idade:

Musa vã, que em ti não cabes,

Os guerreiros arraiais

Nem vituperes, nem gabes;

E não te metas jamais

A falar no que não sabes:

Haja bloqueio, haja assédio,

O sangue humano espalhado

Nem sempre te cause tédio;

Que em boa dose tomado,

Té o veneno é remédio:

Deixa ir o mundo seu passo;

E contra si mesmo armado

Corte c’um braço o outro braço;

Põe na boca um cadeado,

Faze o que eu mil vezes faço:

Emprega melhor teu canto;

E pois queres que te louvem,

Mão das sátiras levanto;

Poesias que os homens ouvem,

Um com riso, e cem com pranto:

De bons anos na função

Leva a Filis fria glosa;

Beija-lhe a nevada mão;

Chama-lhe Vênus formosa,

Inda que seja um dragão:

Éclogas também dão fama;

Falia em surrão, e em curral;

E do vulgo os olhos chama

Nas paredes do arsenal,

Cheia de aplauso e de lama:

De galegos rodeada

Aos aristarcos escapa;

Té que das tendas chamada

Sejas protetora capa

De manteiga e marmelada.