A HENRIQUE DA CUNHA DESENFADO DO POETA POR INSIGNE MENTIROSO, CHEGANDO DA ITAPEM...
Senhor Henrique da Cunha,
vós, que sois na Itapema
conhecido pelo brio,
graça, garbo, e gentileza:
Vós, que donde quer que estais,
todo o mundo se vos chega
a escutar a muita graça,
que vos chove a boca cheia:
Vós, que partindo de casa
ou seja a remo, ou a vela,
bem que venhas sem velame,
vindes fiado na verga.
E apenas tendes chegado
a esta Cajaíba amena,
logo São Francisco o sabe,
logo Apolônia se enfeita.
Logo chovem os recados,
logo a canoa se apresta,
logo vai, e logo encalha,
logo toma, e logo chega.
Logo vós a conduzis
para a casa das galhetas,
onde o melado se adoça,
onde a garapa se azeda.
Entra ela, entrai vós também,
assenta-se, e vós com ela,
e assentada lhe brindais
à saúde da fodenga.
Vós, mas basta tanto vós,
se bem que a Musa burlesca
anda tão desentoada,
que já não canta, vozeia.
Às vossas palavras vamos,
vamos às vossas promessas,
que com serem infinitas,
não são mais que as minhas queixas.
Prometeste-me há dous anos
de fazer-me aquela entrega
da viúva de Nain,
que hoje é glória da Itapema.
Não me mandastes combói,
necessária diligência
para um triste, que não sabe
nem caminho, nem carreira.
Tão penoso desde entonces
fiquei com tamanha perda,
que ou a pena há de acabar-me,
ou há de acabar-me a pena.
Mas inda assim eu confio
na Senhora Dona Tecla,
que nas dez varas de Holanda
hei de amortalhar a pena.
Disse amortalhar? mal disse,
melhor ressurgir dissera,
que em capela tal ressurge
a mais defunta potência.
Vós me tirastes do ganho,
sois meu amigo, paciência:
por isso diz o rifão,
que o maior amigo aprega.
Se vós soubestes lográ-la,
que sois com suma destreza
grande jogador de porra
pela branca, e pela preta.
Jogais a negra, e a branca,
e tudo na escola mesma,
bem haja a escrava, a senhora,
que uma d’outra se não zela.
Esta é a queixa passada,
porém a presente queixa
é, que a todos os amigos
mandastes mimos da terra.
A um peças de piaçaba,
fizestes a outros peça,
eu já essa peça tomara
por ter de vós uma prenda.
Enviai-me alguma cousa,
mais que seja um pau de lenha,
terei um pau para os cães,
que é, o que há na nossa terra.
Lembre-vos vosso compadre,
que o tal Duarte de Almeida
co’a obra parou enquanto
a piaçaba não chega.
Mandai-me uma melancia,
que ainda que é fruta velha,
não importa o ser passada,
como de presente venha.
Mandai-me um par de tipóias,
das que se fazem na terra
a dous cruzados cada uma,
que eu mandarei a moeda.
Mandai-me sem zombaria,
que eu vo-lo peço deveras,
porque eu não peço de graça,
quanto a dinheiro se venda.
Mandai boas novas vossas,
em que vos sirva, e obedeça,
que como vosso cativo
irei por mar, e por terra.
Mandai-me novas da Mãe,
das Filhas muitas novelas,
pois em fazê-las excedem
Cervantes, e outros Poetas.
E perdoai disparates,
de quem tanto vos venera,
que por em tudo imitar-vos,
vos quer seguir na fodenga.