A HENRIQUE DA CUNHA DESENFADO DO POETA POR INSIGNE MENTIROSO, CHEGANDO DA ITAPEM...

By Gregório de Matos Guerra

Senhor Henrique da Cunha,

vós, que sois na Itapema

conhecido pelo brio,

graça, garbo, e gentileza:

Vós, que donde quer que estais,

todo o mundo se vos chega

a escutar a muita graça,

que vos chove a boca cheia:

Vós, que partindo de casa

ou seja a remo, ou a vela,

bem que venhas sem velame,

vindes fiado na verga.

E apenas tendes chegado

a esta Cajaíba amena,

logo São Francisco o sabe,

logo Apolônia se enfeita.

Logo chovem os recados,

logo a canoa se apresta,

logo vai, e logo encalha,

logo toma, e logo chega.

Logo vós a conduzis

para a casa das galhetas,

onde o melado se adoça,

onde a garapa se azeda.

Entra ela, entrai vós também,

assenta-se, e vós com ela,

e assentada lhe brindais

à saúde da fodenga.

Vós, mas basta tanto vós,

se bem que a Musa burlesca

anda tão desentoada,

que já não canta, vozeia.

Às vossas palavras vamos,

vamos às vossas promessas,

que com serem infinitas,

não são mais que as minhas queixas.

Prometeste-me há dous anos

de fazer-me aquela entrega

da viúva de Nain,

que hoje é glória da Itapema.

Não me mandastes combói,

necessária diligência

para um triste, que não sabe

nem caminho, nem carreira.

Tão penoso desde entonces

fiquei com tamanha perda,

que ou a pena há de acabar-me,

ou há de acabar-me a pena.

Mas inda assim eu confio

na Senhora Dona Tecla,

que nas dez varas de Holanda

hei de amortalhar a pena.

Disse amortalhar? mal disse,

melhor ressurgir dissera,

que em capela tal ressurge

a mais defunta potência.

Vós me tirastes do ganho,

sois meu amigo, paciência:

por isso diz o rifão,

que o maior amigo aprega.

Se vós soubestes lográ-la,

que sois com suma destreza

grande jogador de porra

pela branca, e pela preta.

Jogais a negra, e a branca,

e tudo na escola mesma,

bem haja a escrava, a senhora,

que uma d’outra se não zela.

Esta é a queixa passada,

porém a presente queixa

é, que a todos os amigos

mandastes mimos da terra.

A um peças de piaçaba,

fizestes a outros peça,

eu já essa peça tomara

por ter de vós uma prenda.

Enviai-me alguma cousa,

mais que seja um pau de lenha,

terei um pau para os cães,

que é, o que há na nossa terra.

Lembre-vos vosso compadre,

que o tal Duarte de Almeida

co’a obra parou enquanto

a piaçaba não chega.

Mandai-me uma melancia,

que ainda que é fruta velha,

não importa o ser passada,

como de presente venha.

Mandai-me um par de tipóias,

das que se fazem na terra

a dous cruzados cada uma,

que eu mandarei a moeda.

Mandai-me sem zombaria,

que eu vo-lo peço deveras,

porque eu não peço de graça,

quanto a dinheiro se venda.

Mandai boas novas vossas,

em que vos sirva, e obedeça,

que como vosso cativo

irei por mar, e por terra.

Mandai-me novas da Mãe,

das Filhas muitas novelas,

pois em fazê-las excedem

Cervantes, e outros Poetas.

E perdoai disparates,

de quem tanto vos venera,

que por em tudo imitar-vos,

vos quer seguir na fodenga.