A HORA DA MORTE
Em breve eu parto para outros mundos!
Que desconforto! Que desconforto!
Daqui a instantes (talvez segundos!)
Estarei morto!
Meus olhos choram fios de sangue,
Cavos gemidos truncam-me a voz...
Abutres bicam meu corpo exangue
Com fúria atroz!
Sussurram vozes... Escuto passos
Lentos... É a morte que me procura
Para levar-me nos hirtos braços
À sepultura!
Macabramente batem martelos...
Amplos sudários tremulam no ar...
Surgem sinistros polichinelos
A gargalhar!
Certo ao inferno sou condenado
(Ai de minh’alma!) por ter, não poucas
Vezes, de beijos ensanguentado
Cheirosas bocas!
No quintalejo chorões farfalham,
Descabelados, beijando o pó;
Álamos fremem, cedros ramalham...
Agouros só!
Daquela que a alma sem fé me engoiva
Lembro-me e o pranto meu rosto orvalha!
Ah! quem me dera seu véu de noiva
Para mortalha!
Nenhum amigo (tantos eu tinha!)
Me vale neste lance cruel!
Hei de sozinho sorver a minha
Taça de fel!
Visões me assaltam... Estranha gente
Ri dos meus gestos desesperados...
Ao longe, um sino, plangentemente,
Dobra a finados...
Já que não posso fugir da Morte
(Já vai gelando meu coração!)
Quero que seja bem largo e forte
O meu caixão!
Rondam fantasmas com ar funéreo...
As trevas descem, a luz me foje...
Sei que no fundo de um cemitério
Vou dormir hoje!
Hão de deixar-me no Campo Santo,
Num abandono desolador,
Sem epitáfio, sem cruz, sem pranto,
Sem uma flor!
Torvo coveiro me espera rindo,
Cantarolando sombria trova.
Já ouço os ecos da enxada abrindo
A minha cova...
Soltam corujas pios insanos...
Ninguém na terra chora por mim...
Ah! como é triste na flor dos anos
Morrer assim!