A HORA DA MORTE

By Gustavo de Paula Teixeira

Em breve eu parto para outros mundos!

Que desconforto! Que desconforto!

Daqui a instantes (talvez segundos!)

Estarei morto!

Meus olhos choram fios de sangue,

Cavos gemidos truncam-me a voz...

Abutres bicam meu corpo exangue

Com fúria atroz!

Sussurram vozes... Escuto passos

Lentos... É a morte que me procura

Para levar-me nos hirtos braços

À sepultura!

Macabramente batem martelos...

Amplos sudários tremulam no ar...

Surgem sinistros polichinelos

A gargalhar!

Certo ao inferno sou condenado

(Ai de minh’alma!) por ter, não poucas

Vezes, de beijos ensanguentado

Cheirosas bocas!

No quintalejo chorões farfalham,

Descabelados, beijando o pó;

Álamos fremem, cedros ramalham...

Agouros só!

Daquela que a alma sem fé me engoiva

Lembro-me e o pranto meu rosto orvalha!

Ah! quem me dera seu véu de noiva

Para mortalha!

Nenhum amigo (tantos eu tinha!)

Me vale neste lance cruel!

Hei de sozinho sorver a minha

Taça de fel!

Visões me assaltam... Estranha gente

Ri dos meus gestos desesperados...

Ao longe, um sino, plangentemente,

Dobra a finados...

Já que não posso fugir da Morte

(Já vai gelando meu coração!)

Quero que seja bem largo e forte

O meu caixão!

Rondam fantasmas com ar funéreo...

As trevas descem, a luz me foje...

Sei que no fundo de um cemitério

Vou dormir hoje!

Hão de deixar-me no Campo Santo,

Num abandono desolador,

Sem epitáfio, sem cruz, sem pranto,

Sem uma flor!

Torvo coveiro me espera rindo,

Cantarolando sombria trova.

Já ouço os ecos da enxada abrindo

A minha cova...

Soltam corujas pios insanos...

Ninguém na terra chora por mim...

Ah! como é triste na flor dos anos

Morrer assim!