À HORA DA PARTIDA
Loira, com seu colar de pedras preciosas,
Assoma a aurora a rir ao belveder de rosas...
A estrela d’Alva, ansiosa e trêmula, cintila
E gradualmente abranda o fogo da pupila.
No alto, as nuvens de jaspe, imóveis como tendas,
São tálamos reais com baldaquins de rendas...
No espelho matinal do azúleo céu de gala
Fosforeiam sutis relâmpagos de opala.
Como flutuantes véus, retalhos de neblinas
— Ondulâncias brumais das vestes matutinas —
Se esgarçam, descobrindo a fronte da montanha
Que o dia — noivo astral — de beijos d’oiro banha.
Trescalam flores. Canta o passaredo em festa...
E ah! que destino o meu! numa aurora como esta
Ter cheia de ais a boca e os olhos rasos de água!
— Ais de abrasante amor, pranto de acerba mágoa!
Partir! partir sem ver aquela que amo tanto,
Aquela que é da vida o derradeiro encanto,
Que tem candor de lis e aroma de verbena!
Partir sem lhe apertar a ebúrnea mão pequena
— Uma concha floral que para mim encerra
Os tesouros do céu e os cabedais da terra, —
É pior que morrer bebendo fel, pregado
Nos braços de uma cruz, lívido e ensanguentado!...
Eis-me em frente da alcova azul em que ela mora,
Do flóreo camarim em que se esconde a aurora
Que me floriu a vida e iluminou minh’alma!
Ela dorme, a sonhar, virginalmente calma,
Como a abelha na rosa e a rosa na folhagem...
Esta alcova é um santuário: há dentro linda imagem!
Ela dorme e talvez com anjos sonhe! O arcanjo
Por quem, cheio de amor e angústia, a lira tanjo,
Deve sonhar com o céu, deve sonhar somente
Com diáfanas visões de um brilho opalescente!
Talvez sua alma envolta em límpidos luares,
Vestida de clarões e raios estelares,
Corra, — as asas de luz abrindo, alvas e belas, —
As ilhas de cristais flamante das estrelas!
Como há de ser risonho o sono dela! Um lírio
Não dorme assim, não dorme! É um sono azul do Empíreo!
Como doce há de ser o arfar daquele seio
Que no alvor dos lençóis se oculta com receio
(A estrela d’Alva é assim!) da própria luz, das flores
Que lhe dão por um beijo uma ânfora de olores!
Ah! quem me dera ver o cândido abandono
Dessa estrela que dorme um cristalino sono
Entre nuvens de arminho e ramos de violeta!
Não dorme assim, não dorme, a ingênua borboleta
No colo da papoula... O sono da inocência
É um vôo para o céu numa espiral de essência...
Como deve encantar a sua formosura
Na quietude da alcova ainda meio escura,
— O cabelo a envolver o torso do alabastro,
Nos lábios de carmim uma centelha de astro,
As mãos cruzadas sobre o seio que palpita
Como o lago que um cisne, alçando o colo, agita!
Dorme... Soa de manso o anélito divino
Como um cicio doce e tênue de violino...
Ela dorme feliz, sonhando e rindo, enquanto
Dos meus olhos deriva amargamente o pranto!
Ah! se eu pudesse vê-la embora um só momento!
Um minuto que fosse! um só... Se o meu lamento
Ela ouvisse, talvez meu choro a comovesse
E à janela, um instante embora, aparecesse!
Talvez aquele rosto encantador e amado,
Pela aurora boreal do amor iluminado,
Inda uma vez eu visse! inda uma vez! e ainda,
Vendo aquela feição radiosamente linda,
Eu pudesse exclamar: — “Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!
“Com uma frase enxuga o pranto que derramo
“Para orvalhar-te as mãos que são preciosas flores!
“Desprende o teu cabelo e inunda-me de olores!
“Põe um favo de mel na minha negra taça!
“Faze-me um astro rir nas trevas da desgraça!
“Vou padecer demais longe de ti! Por certo
“Se fecha para sempre o céu que eu via perto!
“Concede-me um olhar, concede-me um sorriso
“Para eu dizer no Inferno: — “Eu vim do Paraíso!”—
E ela que é de Maria a filha predileta,
Que no seio agasalha a frágil borboleta
Que encontra a congelar no berço de uma rosa,
Talvez chorasse ouvindo a minha voz chorosa!
Talvez se enternecesse ouvindo as minhas penas!
Se ela por mim chorasse!... uma lágrima apenas!...
— Uma gota de orvalho argêntea e pequenina
Tremendo no beiral da pálpebra divina...
Uma gema... um diamante... um rútilo pingente
A luzir, a luzir miraculosamente...
Minh’alma iria ao céu nessa gota de pranto,
Triunfalmente!...
mas, não! eu não aspiro tanto!
Bastava-me um “adeus” daquela voz tão doce,
Tão cheia de ternura e mel como se fosse
A voz de rouxinol cantando na agonia...
Mas, ai! não a verei! Ela repousa. E o dia,
Como um imperador, do trono do Levante,
Sob um amplo dossel de púrpura brilhante,
Pompeando à fronte o sol como um diadema d’oiro,
Dos fulvos raios jorra o torrencial tesoiro...
Chegou, enfim, o instante horrífico, medonho!
Adeus, mulher querida! Adeus, extremo sonho!...