A HUMA DAMA A QUEM NÃO RENDIÃO FINEZAS.
Sobre esta dura penha,
que repartida em rocas
contra o mar inimigo
quatro fileiras forma:
Dos mares combatida,
escalada das ondas,
incêndios de salitre
não rendem tanta força.
A rocha permanente
às ondas porfiosa,
cheio o mar de coragem
a penha de vitórias.
Não há um desengano
para fúrias tão loucas
de um elemento débil,
a quem o vento assopra.
Mas o curso dos dias,
e a carreira das horas,
que dão a todo o mundo
escarmento e memória,
Hão de mostrar-lhe enfim,
que nas maiores forças
não há intento sisudo
com esperanças loucas.
Aqui pois onde o fado
me conduz, ou me arroja
a escrever desenganos
ao mar desde esta roca:
Quero queixar-me ao céu
nas cordas numerosas
de minha triste lira
já de queixar-me rouca.
Porque razão, pergunto,
a esfera luminosa
me fez tão semelhante
desta invencível roca?
A roca inexpugnável
reveste-se animosa
da pólvora dos ventos,
que dentro d’água estoura:
E eu também me resisto,
há mais de mil auroras
aos vaivéns da fortuna,
vários, como ela própria.
A penha incontrastável,
cada maré se molha,
e leva o branco pé
nas sucessivas ondas.
Eu também incansável
me levo cada hora
no sucessivo pranto,
que me inunda, e me afoga.
As ondas à porfia
até ver se se prostra
o firme de um penhasco
o duro de uma rocha.
Também minha fortuna
tenaz, e porfiosa
insiste, em que se prostre
minha firmeza heróica.
Oh nunca semelhante
fora eu desta roca,
oh nunca foram tantos
nem tão fortes meus males
como as ondas.