A HUMA DAMA A QUEM NÃO RENDIÃO FINEZAS.

By Gregório de Matos Guerra

Sobre esta dura penha,

que repartida em rocas

contra o mar inimigo

quatro fileiras forma:

Dos mares combatida,

escalada das ondas,

incêndios de salitre

não rendem tanta força.

A rocha permanente

às ondas porfiosa,

cheio o mar de coragem

a penha de vitórias.

Não há um desengano

para fúrias tão loucas

de um elemento débil,

a quem o vento assopra.

Mas o curso dos dias,

e a carreira das horas,

que dão a todo o mundo

escarmento e memória,

Hão de mostrar-lhe enfim,

que nas maiores forças

não há intento sisudo

com esperanças loucas.

Aqui pois onde o fado

me conduz, ou me arroja

a escrever desenganos

ao mar desde esta roca:

Quero queixar-me ao céu

nas cordas numerosas

de minha triste lira

já de queixar-me rouca.

Porque razão, pergunto,

a esfera luminosa

me fez tão semelhante

desta invencível roca?

A roca inexpugnável

reveste-se animosa

da pólvora dos ventos,

que dentro d’água estoura:

E eu também me resisto,

há mais de mil auroras

aos vaivéns da fortuna,

vários, como ela própria.

A penha incontrastável,

cada maré se molha,

e leva o branco pé

nas sucessivas ondas.

Eu também incansável

me levo cada hora

no sucessivo pranto,

que me inunda, e me afoga.

As ondas à porfia

até ver se se prostra

o firme de um penhasco

o duro de uma rocha.

Também minha fortuna

tenaz, e porfiosa

insiste, em que se prostre

minha firmeza heróica.

Oh nunca semelhante

fora eu desta roca,

oh nunca foram tantos

nem tão fortes meus males

como as ondas.