A HUMA DAMA CHAMADA JOSEPHA, QUE EM NOYTE DE SAM JOÃO LHE REBENTOU HUM FOGUETE BUSCAPE ENTRE AS PERNAS, DE QUE FICOU BEM MAL TRATADA.

By Gregório de Matos Guerra

Só vós, Josefa, só vós

sabeis em todo o sertão

festejar o São João,

na noite de catrapós:

os vossos foguetes sós

de fio, taboca, e pez

são foguetes, pois num mês

tivestes por vosso abono

um foguete busca-cono,

um lugar de busca-pés.

Quem tal foguete botou,

que em boa realidade

vos fodeu contra a vontade

e a foda vos não pagou?

conforme ele se embocou

vinha bem industriado;

mas não foi grande o pecado,

em que o foguete há caído

deixar-vos o cono ardido,

se antes andava arreitado.

O foguete por tramóia

vos queima, e deixa arrasada,

e os que passam pela estrada,

vão dizendo “aqui foi Tróia”:

vaso, que sendo uma jóia

não pôde ao menor resquício,

reparar em o artifício,

digam-lhe em forma de pedra

escallo armado de Yedra

yo te conoci Edifício.

Deixou-vos vosso parceiro,

vendo, que entre tantas falhas,

O que eram altas muralhas,

hoje é triste pardieiro:

que faria o pegureiro

vendo, no que vaso foi

lo que va de ayer a oy

e lhe dizíeis ali,

que ayer maravilla fuí

y oy sombra mia aun no soy.

Deixou-vos tão de carreira

com medo deste fracasso,

pois viu, que o que era vaso,

já agora estava caveira:

como quereis, que vos queira,

nem que torne ao vosso horto,

se de pasmado, e absorto

lhe pareceu, que seria

pecado de Sodomia

fornicar um vaso morto.

Daquela campanha chã

tão rasa, e tão abrasada

fugiu, porque era estampada

a pedra da Itapoã:

e como cada manhã

a pedra furada atroa,

e o homem era pessoa

tão amigo de um bom trato,

vos disse “fora Lobato,

que esse vaso mal me soa”.

Mas como vós sois cachorra;

e sobre isto ardida estais,

de uma em outra porta andais

pedindo esmolas de porra:

não achais, quem vos socorra,

nem quem para vós se emangue,

com que a cada pé de mangue

chorais, que em tão triste caso

ninguém vos aceita o vaso,

temendo lhe queime o sangue.

Josefa, o que está melhor

ao vosso cono caveira,

é dá-lo uma sexta-feira

de Quaresma a um Pregador:

porque ele com seu fervor,

e co’a caveira na mão

fara tão grande sermão,

que os homens por seu abono

ouvindo o memento cono

todos se arrependerão.