A HUMA DAMA FULANA DE MENDONÇA FURTADO, COM QUEM FOY O POETA ACHADO POR SUA MULH...
Rifão é justificado
desde o Índio ao Etiópio,
que sabendo muito próprio,
muito mais sabe o furtado:
eu deste engodo levado,
que desde menino ouvia,
forçado da simpatia,
ou da minha ardente chama,
a furto da própria Dama,
a vossa nata comia.
Comendo uma, e outra vez
da nata, que Amor cobiça,
o demo, que tudo atiça,
descobriu tudo, o que fez:
deu-me a Dama tal revés,
tal repúdio, e tal baldão,
sabendo a minha traição,
como é de crer de uma Dama,
que me achou na vossa cama
co mesmo furto na mão.
Não tive, que lhe alegar,
ou que dar-lhe por desculpa,
que quem tem gosto na culpa,
o perde em se desculpar:
não consiste o meu pesar
em perder esta mulher,
sinto, Senhora, o perder
junto com a vossa afeição
uma, e outra ocasião
de torná-la a ofender.
Mas se a ocasião deixei,
como não me deixa amor!
Não vos gozarei traidor,
e fiel vos gozarei:
até agora vos logrei
com susto, que acabou já,
agora vos logrará
amor sem susto, e cuidado,
e quando não for furtado,
gosto, Mendonça, será.