A HUMA DAMA FULANA DE MENDONÇA FURTADO, COM QUEM FOY O POETA ACHADO POR SUA MULHER.

By Gregório de Matos Guerra

Rifão é justificado

desde o Índio ao Etiópio,

que sabendo muito próprio,

muito mais sabe o furtado:

eu deste engodo levado,

que desde menino ouvia,

forçado da simpatia,

ou da minha ardente chama,

a furto da própria Dama,

a vossa nata comia.

Comendo uma, e outra vez

da nata, que Amor cobiça,

o demo, que tudo atiça,

descobriu tudo, o que fez:

deu-me a Dama tal revés,

tal repúdio, e tal baldão,

sabendo a minha traição,

como é de crer de uma Dama,

que me achou na vossa cama

co mesmo furto na mão.

Não tive, que lhe alegar,

ou que dar-lhe por desculpa,

que quem tem gosto na culpa,

o perde em se desculpar:

não consiste o meu pesar

em perder esta mulher,

sinto, Senhora, o perder

junto com a vossa afeição

uma, e outra ocasião

de torná-la a ofender.

Mas se a ocasião deixei,

como não me deixa amor!

Não vos gozarei traidor,

e fiel vos gozarei:

até agora vos logrei

com susto, que acabou já,

agora vos logrará

amor sem susto, e cuidado,

e quando não for furtado,

gosto, Mendonça, será.