A HUMA DAMA POR NOME MARIA VIEGAS, QUE FALLAVA FRESCO, E CORRIA POR CONTA DO CAP...

By Gregório de Matos Guerra

Senhora Cota Vieira,

Deus me não salve a minha alma,

se vós não me pareceis

uma linda, e gentil dama.

Tão risonha como a Aurora,

tão alegre como a Páscoa,

mais belicosa, que o fogo,

e mais corrente, que a água.

Picará como nascida

na picardia da França,

e assim francesa nas obras,

Portuguesa nas palavras.

Tudo chamais por seu nome

tão propriamente, tão clara,

que ao cono lhe chamais cono,

chamais caralho à caralha.

Malditas da maldição

de Deus sejam as tavascas,

que de surradas nas obras

põem de bioco as palavras.

Há cousa como chamar,

o que uma cousa se chama,

porque sirva de sustento

à luxúria, que desmaia.

Há cousa como falar,

como o Pai Adão falava,

pão por pão, vinho por vinho,

e caralho por caralha.

Quem pôs o nome de crica

à crica, que se esparralha,

senão nosso Pai Adão

quando com Eva brincava?

Pois se pôs o nome às cousas

o Pai da nossa prosápia,

porque Deus lho permitiu,

nós por que hemos de emendá-las?

Mas tornando ao vosso garbo,

sois, Maricas, tão bizarra, que

estive nem mais nem menos

por vos dar a piçalhada.

Tive debaixo da língua

o pedir-vos uma lasca

da nata do vosso cono,

se é, que tem côdea essa nata.

Quando a culatra vos vi

tão tremenda, e rebolada,

meti logo a mão à porra,

e estive saca, não saca.

Mas reverente adverti,

que ali o Capitão estava

senhor das minhas ações

e dono da vossa casa.

Porque inda que sempre diz,

que assentou convosco a espada,

eu creio, no que Deus disse,

não no que um berrante fala.

Quem, o que deve a um amigo

em respeitos lhe não paga,

não é amigo, nem homem,

é uma besta assalvajada.

Mas andar, foda ele embora,

isso não importa nada,

teremos amores secos,

seco é o biscouto, e campa.

Falaremos sempre aos molhos,

e riremos às canadas,

folgaremos, que amor seco

sem molhar beiço se passa.

Irei conversar convosco,

e a reverenda Madrasta

entre os pontinhos que der

meta sua colherada.

Assim se passa uma vida

tão santa, e tão ajustada,

que ganharemos o céu

na sacra via às braçadas.

Meus recados à Velhinha,

outros tantos à Mulata,

à Negrinha da corrente

e às vossas Damas pintadas.