A HUMA DAMA QUE ESTAVA SANGRADA.

By Gregório de Matos Guerra

Estava Clóris sangrada,

e Fábio, que a visitava

com ver, que sangrada estava

lhe deu logo outra picada:

ela tão aliviada

ficou, que se ergueu da cama,

dizendo, bem haja a Dama

de Adônis, cuja virtude,

quando me pica em saúde,

eu me sangro, ele derrama.

Como na vida acertou,

onde habita a saudade,

extinta a má qualidade,

a enfermidade acabou:

nunca Galeno alcançou

nas sangrias, que me aplica,

quanto o ferro prejudica,

e eu curada com dieta

já sei, que pica a lanceta,

e somente sangra a pica.

Fábio me curou do mal,

que na cama lhe informei,

não com xarope de rei,

mas com régio cordial:

se se curar cada qual

somente com seu galante,

há de sarar num instante,

pois quando eu caio doentinha,

não hei mister mais meizinha,

que a meu Mano se levante.