A HUMA DAMA QUE LHE MANDOU HUM CRAVO EM OCCASIÃO, QUE SE LHE QUEIXAVA DE CERTO A...

By Gregório de Matos Guerra

Nise, vossa formosura

queixosa de certo agravo

me dá hoje uma no cravo

e a outra na ferradura:

uma verde, outra madura

achei no vosso craveiro,

que o cravo é favor inteiro;

mas cravo com queixa ao pé

é o mesmo que dizer, que

o gosto não, mas o cheiro.

Que mal fica ao meu intento,

que o cheiro me queirais dar?

dai-mo vós sempre a cheirar,

que eu co cheiro me contento:

quando um roçagante vento

passa de uma em outra rosa,

e de cada flor cheirosa

lhe leva a fragrância inteira,

se assim por seu modo a cheira,

também por seu modo a goza.

Se com soberba, e jactância

de uma flor tão rescendente

me dais o cheiro somente,

eu tomo a flor, e a fragrância:

se eu entrar na verde estância,

onde Amor vos tem disposto,

crede do meu bom suposto,

que em vendo o vosso craveiro,

lhe hei de tomar não só o cheiro,

mas hei de tomar-lhe o gosto.

Hei de ser como o vilão,

e com boa, ou com má fé,

se vós me deres o pé,

vos hei de tomar a mão:

e se nem o pé me dão

vossos rigores tão vãos,

tão ímpios tão maus cristãos,

nem por isso afrouxarei,

porque outro pé buscarei,

para beijar-vos as mãos.

Se o cheiro agora me toca,

logo o gosto me dareis,

que vós, Nise, bem sabeis,

que ao nariz se segue a boca:

nunca o bocado se emboca,

sem que se cheire primeiro,

agora me dais o cheiro,

e depois que eu o cheirar,

sei mui bem, que me heis de dar

o vaso, e mais o craveiro.

Depois que o vaso tiver,

que me dará vosso amor,

hei de colher-vos a flor,

se no vaso flor houver:

se não sempre sois mulher,

que na cabeça vos entre

ser justo, se reconcentre

minha carne em vossa olha,

com que em vez de flor eu colha

um fruito de vosso ventre.