A HUMA DAMA QUE MACHEAVA OUTRAS MULHERES.
Namorei-me sem saber
esse vício, a que te vás,
que a homem nenhum te dás,
e tomas toda a mulher.
Foste tão presta em matar-me
Nise, que não sei dizer-te,
se em mim foi primeiro o ver-te,
do que em ti o contentar-me
sendo força o namorar-me
com tal pressa houve de ser,
que importando-me aprender
a querer, e namorar,
por mais me não dilatar
Namorei-me sem saber.
A saber como te amara,
menos mal me acontecera,
pois se mais te comprendera,
tanto menos te adorara:
a vista nunca repara,
no que dentro d’alma jaz,
e pois tão louca te traz
que só por Damas suspiras,
não te amara, que tu viras,
Esse vício, a que te vás.
Se por Damas me aborreces
absorta em suas belezas,
a tua como a desprezas,
se é maior que as que apeteces?
se a ti mesma te quisesses,
querendo, o que a mim me praz,
seria eu contente assaz,
mas como serei contente,
se por mulheres se sente,
Que a homem nenhum te dás?
Que rendidos homens queres,
que por amores te tomem?
se és mulher, não para homem,
e és homem para mulheres?
Qual homem, ó Nise, inferes,
que possa, senão eu, ter
valor para te querer?
se por amor nem por arte
de nenhum deixas tomar-te
E tomas toda a mulher!