A HUMA DAMA QUE MACHEAVA OUTRAS MULHERES.

By Gregório de Matos Guerra

Namorei-me sem saber

esse vício, a que te vás,

que a homem nenhum te dás,

e tomas toda a mulher.

Foste tão presta em matar-me

Nise, que não sei dizer-te,

se em mim foi primeiro o ver-te,

do que em ti o contentar-me

sendo força o namorar-me

com tal pressa houve de ser,

que importando-me aprender

a querer, e namorar,

por mais me não dilatar

Namorei-me sem saber.

A saber como te amara,

menos mal me acontecera,

pois se mais te comprendera,

tanto menos te adorara:

a vista nunca repara,

no que dentro d’alma jaz,

e pois tão louca te traz

que só por Damas suspiras,

não te amara, que tu viras,

Esse vício, a que te vás.

Se por Damas me aborreces

absorta em suas belezas,

a tua como a desprezas,

se é maior que as que apeteces?

se a ti mesma te quisesses,

querendo, o que a mim me praz,

seria eu contente assaz,

mas como serei contente,

se por mulheres se sente,

Que a homem nenhum te dás?

Que rendidos homens queres,

que por amores te tomem?

se és mulher, não para homem,

e és homem para mulheres?

Qual homem, ó Nise, inferes,

que possa, senão eu, ter

valor para te querer?

se por amor nem por arte

de nenhum deixas tomar-te

E tomas toda a mulher!