A HUMA DAMA, QUE MANDANDO-A O POETA SOLICITAR LHE MANDOU DIZER QUE ESTAVA MENSTR...

By Gregório de Matos Guerra

O teu hóspede, Catita,

foi mui atrevido em vir

a tempo, que eu hei mister

o aposento para mim.

Não vou topar-me com ele,

porque havemos de renhir,

e há de haver por força sangue,

porque é grande espadachim.

Tu logo trata de pôr

fora do teu camarim

um hóspede caminheiro

que anda sempre a ir, e vir.

Um hóspede impertinente

de mau sangue, vilão ruim:

por mais que Cardeal seja

vestido de carmesim.

Despeje o hóspede a casa,

pois lhe não custa um ceitil,

e a ocupa de ordinário

sem pagar maravedi.

Não tenhas hóspede em casa

tão asqueroso, tão vil,

que até os que mais te querem

fujam por força de ti.

Um hóspede aluado,

e sujeito a frenesis,

que em sendo quarto de lua

de fina força há de vir.

Que diabo há de sofrê-lo,

se vem com tão sujo ardil,

a fazer disciplinante,

quem foi sempre um serafim?

Acaso o teu passarinho

é pelicano serril,

que esteja vertendo sangue

para os filhos, que eu não fiz?

Vá-se o mês, e venha o dia,

em que eu te vá entupir

essas cruéis lancetadas

com lanceta mais sutil.

Deixa já de ensanguentar-te,

porque os pecados que eu fiz,

não é bem, que pague em sangue

o teu pássaro por mim.