A HUMA DAMA QUE POR UM VIDRO DE ÁGUA TIRAVA O SOL DA CABEÇA.
Qual encontra na luz pura
a Mariposa desmaios,
tal de Clóri sente a raios
assaltos a formosura:
remédio a seu mal procura,
mas com ser a doença clara,
já eu lha dificultara,
temendo em tanto arrebol,
que tirar da testa o sol,
lhe custa os olhos da cara.
Posto que o sol não resista,
temo, que ali não faleça,
porque se ofende a cabeça,
nunca desalenta a vista:
nesta pois de ardor conquista
vejo a Clóri perigar,
pois querendo porfiar,
das duas uma há de ser,
ou não há de ao sol vencer,
ou sem vista há de ficar.
Mas Clóri assim achacada
que está, é cousa sabida,
menos do sol ofendida,
que da lua perturbada:
que esteja Clóri aluada,
é inferência comua,
pois se ao sol da fonte sua
perturbam nuvens de ardores,
quando ao sol sobem vapores,
é nas mudanças da lua.
Se Clóri se persuadira,
que só da lua enfermara,
da cabeça não curara,
mas aos pés logo acudira:
se o calor porém lhe inspira,
que o seu mal todo é calor,
pois o maior ao menor
por razão deve prostrar,
para as do sol sepultar,
procure as chamas do amor.
Mas se as do fogo não quer,
bem se val das armas d’água,
que só pode em tanta frágua
tanto vidro alívio ser:
nele o mal remédio ter,
o mesmo sol o assegura,
que se nas águas procura
em seus ardores abrigo,
quem tem em cristal jazigo,
acha em vidros sepultura.