A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.

By Gregório de Matos Guerra

Filena: eu que mal vos fiz,

que sempre a matar-me andais,

uma vez, quando me olhais,

outra quando me fugis:

vi-vos, e logo vos quis

tão inseparavelmente,

que nem a vista ao presente

ao menos sabe dizer-me,

entre ver-vos, e render-me

qual foi primeiro acidente.

Vós sois tão esquiva, e tal,

que outras cousas não sabendo,

da vossa esquivança entendo,

que o meu amor me fez mal:

não cabe em meu natural

fugir, de quem me maltrata,

e se me sai tão barata

a vingança de querer-vos,

quero amar-vos, e sofrer-vos,

porque fiqueis mais ingrata.

Não sinto esta pena atroz,

que me fazeis padecer,

antes folgo de morrer,

vendo, que morro por vós:

e se com passo veloz

vejo a morte já chegar,

não sinto ver-me acabar,

sinto a glória, que vos cresce,

que uma ingrata não merece

a glória de me matar.

Vivam vossas esquivanças,

e vossa crueldade viva,

que a sem-razão de uma esquiva

acredita as esperanças:

tudo tem certas mudanças,

também se muda o rigor,

e se Amor me dá valor

para sofrer-vos, e amar-vos,

claro está, que hão de mudar-vos

firmezas do meu amor.