A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZE...
Ó vós, quem quer que sejais,
que nem o nome vos sei,
Freira, a quem nunca falei,
e tão mal de mim falais:
porque à fome me matais,
sem vos dar motivo algum?
pois querendo mandar-me um
vermelho uma Freira guapa,
vós me destes sem ser paga
esse dia de jejum.
Não quisestes porfiosa,
que se me mandasse o peixe,
formando para isso um feixe
de razões de bem má prosa:
a Freirinha era medrosa,
e vós, que o peixe intentastes
livrar de tantos contrastes,
de sátiro me arguístes,
e satírica não vistes,
que então me satirizastes.
Sendo o conselho tão tosco,
tão bem a Freira o tomou,
que o peixe me não mandou,
por não se espinhar convosco:
mas vós que tendes conosco,
comigo, e minha talia?
e se o peixe vos doía,
em que eu agora me escaldo,
se o fazíeis pelo caldo,
o caldo eu vo-lo daria.
Oh: faz a um cuspir no chão
uma sátira o Doutor:
satiriza um Pica-flor,
quanto mais a um peixarrão:
homem de tal condição
não se lhe dá de comer,
e tem pouco que entender,
que o Doutor já fraco, e velho
se há de comer o vermelho
por força o há de morder.
Pois destes tão mal conselho,
rogo ao demo, que vos tome,
por deixar morrer à fome
um pobre faminto velho:
rogo ao demo, que ao seu relho
vos prenda com força tanta,
que nunca arredeis a planta,
e que a espinha muita, ou pouca,
que me tirastes da boca,
se vos crave na garganta.
Assim como isto é verdade,
que pelo vosso conselho
perdi eu o meu vermelho,
percai vós a virgindade:
que vo-la arrebate um frade;
mas isto que praga é?
praza ao demo, que um cobé
vos plante tal mangará,
que parais um Paiaiá,
mais negro do que um Guiné.