A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZE...

By Gregório de Matos Guerra

Ó vós, quem quer que sejais,

que nem o nome vos sei,

Freira, a quem nunca falei,

e tão mal de mim falais:

porque à fome me matais,

sem vos dar motivo algum?

pois querendo mandar-me um

vermelho uma Freira guapa,

vós me destes sem ser paga

esse dia de jejum.

Não quisestes porfiosa,

que se me mandasse o peixe,

formando para isso um feixe

de razões de bem má prosa:

a Freirinha era medrosa,

e vós, que o peixe intentastes

livrar de tantos contrastes,

de sátiro me arguístes,

e satírica não vistes,

que então me satirizastes.

Sendo o conselho tão tosco,

tão bem a Freira o tomou,

que o peixe me não mandou,

por não se espinhar convosco:

mas vós que tendes conosco,

comigo, e minha talia?

e se o peixe vos doía,

em que eu agora me escaldo,

se o fazíeis pelo caldo,

o caldo eu vo-lo daria.

Oh: faz a um cuspir no chão

uma sátira o Doutor:

satiriza um Pica-flor,

quanto mais a um peixarrão:

homem de tal condição

não se lhe dá de comer,

e tem pouco que entender,

que o Doutor já fraco, e velho

se há de comer o vermelho

por força o há de morder.

Pois destes tão mal conselho,

rogo ao demo, que vos tome,

por deixar morrer à fome

um pobre faminto velho:

rogo ao demo, que ao seu relho

vos prenda com força tanta,

que nunca arredeis a planta,

e que a espinha muita, ou pouca,

que me tirastes da boca,

se vos crave na garganta.

Assim como isto é verdade,

que pelo vosso conselho

perdi eu o meu vermelho,

percai vós a virgindade:

que vo-la arrebate um frade;

mas isto que praga é?

praza ao demo, que um cobé

vos plante tal mangará,

que parais um Paiaiá,

mais negro do que um Guiné.