A HUMA MOÇA QUE PERDEO DOUS CASAMENTOS AJUSTADOS, O PRIMEYRO COM HUM FLAMENGO, Q...
Senhora Donzela: à míngua
de um casamento jucundo
cousas sucedem no mundo,
que me puxam pela língua:
o que se conta, vos míngua
na fortuna do himeneu,
pois a sorte vos perdeu
dous, que o céu vos deparou,
um, que inda nada provou,
e outro que tudo bebeu.
O vosso Noivo Flamengo
não sintais vê-lo fugir,
que não é para sentir
a fugida de um podengo:
eu com riso me derrengo,
vendo, que de mui previsto,
vos dissesse um Anticristo,
que castidade jurou,
quando eu sei, que não votou,
salvo foi um “voto a Cristo”.
O que ele prometeria,
não seria castidade,
mas não falar-vos verdade,
e usar de velhacaria:
grande peça, vos faria,
se vos tivera a mão dado,
que um homem mal encarado,
e de pouco cabedal
mentir-vos antes mais val,
do que depois de casado.
Dai vós ao demo o brichote,
que com coração traidor,
qual boticário de amor
vo-la pregou com serrote:
e vamos ao matalote
do segundo matrimônio,
a quem o mesmo demônio
tão destro vo-lo mandou,
que o matrimônio deixou,
e levou o patrimônio.
Levou com destreza, e manha
de calçar, e de vestir,
porque nisto do mentir
ninguém descalço o apanha:
ser ladrão já não se estranha
nesta idade um soldadinho;
mas vós tendes este gostinho,
(quando a paixão vos corcoma)
e é, que ele o vestido toma,
mas a ele o toma o vinho.
Se por bêbado livrou,
valha-lhe o mesmo direito,
porque ao mais atroz efeito
todo o bêbado escapou:
o Céu vos apadrinhou
em vos livrar de um pirata
e se conforme a vulgata,
porque o inimigo se vá,
ponte de prata se dá,
vós destes ponta de prata.