A HUMA MOÇA QUE PERDEO DOUS CASAMENTOS AJUSTADOS, O PRIMEYRO COM HUM FLAMENGO, Q...

By Gregório de Matos Guerra

Senhora Donzela: à míngua

de um casamento jucundo

cousas sucedem no mundo,

que me puxam pela língua:

o que se conta, vos míngua

na fortuna do himeneu,

pois a sorte vos perdeu

dous, que o céu vos deparou,

um, que inda nada provou,

e outro que tudo bebeu.

O vosso Noivo Flamengo

não sintais vê-lo fugir,

que não é para sentir

a fugida de um podengo:

eu com riso me derrengo,

vendo, que de mui previsto,

vos dissesse um Anticristo,

que castidade jurou,

quando eu sei, que não votou,

salvo foi um “voto a Cristo”.

O que ele prometeria,

não seria castidade,

mas não falar-vos verdade,

e usar de velhacaria:

grande peça, vos faria,

se vos tivera a mão dado,

que um homem mal encarado,

e de pouco cabedal

mentir-vos antes mais val,

do que depois de casado.

Dai vós ao demo o brichote,

que com coração traidor,

qual boticário de amor

vo-la pregou com serrote:

e vamos ao matalote

do segundo matrimônio,

a quem o mesmo demônio

tão destro vo-lo mandou,

que o matrimônio deixou,

e levou o patrimônio.

Levou com destreza, e manha

de calçar, e de vestir,

porque nisto do mentir

ninguém descalço o apanha:

ser ladrão já não se estranha

nesta idade um soldadinho;

mas vós tendes este gostinho,

(quando a paixão vos corcoma)

e é, que ele o vestido toma,

mas a ele o toma o vinho.

Se por bêbado livrou,

valha-lhe o mesmo direito,

porque ao mais atroz efeito

todo o bêbado escapou:

o Céu vos apadrinhou

em vos livrar de um pirata

e se conforme a vulgata,

porque o inimigo se vá,

ponte de prata se dá,

vós destes ponta de prata.