A HUMA MULATA DENTUÇA, QUE TAMBEM VIVIA ESCANDALIZADA, VINDO HUM DIA DA FESTA DE...

By Gregório de Matos Guerra

Por estar na vossa graça

mando os versos, que quereis:

mas vós que me pedireis,

Úrsula, que vos não faça?

Veio aqui a Mangalaça

uma com outra mixela

fazer uma refestela,

e entre tanta pecadora

nunca Mangalaça fora,

se não viésseis vós nela.

Estava eu vendo passar

as Pardas tão mal fardadas,

que cri, que vinham roubadas,

e elas vinham nos roubar:

não tive então, que lhes dar,

que em mim o dar se acabou;

mas como sempre ficou

a vanglória de agradar-lhes

se até agora dei em dar-lhes

já agora em não dar-lhos dou.

Enquanto ao sorvo, e ao trago

não houve falta, antes sobre,

que ainda que a Juíza é pobre,

ganha às vezes, que é um lago:

houve mais vinho que bago,

e mais caldo que pimentas,

e estando todas sedentas

bebendo uma e outra vez

o relógio dava as três,

e o frasco dava as trezentas.

Só vós, Úrsula bizarra,

entre uma e outra borracha

cantáveis como gavacha

sustenidos de guitarra:

deu-vos o sumo da parra

numa fábrica estrangeira,

pois num palafrém lazeira

formastes, com dar um zurro,

para vosso amigo um burro,

para vós uma liteira.

Fostes nas ancas chantada,

e haveis de vos agastar,

se Sodoma vos chamar,

indo de ancas cavalgada:

eu já vos não digo nada,

porque hei medo a vossos dentes:

só digo, que andam as gentes

dizendo, que o vosso amigo

se expôs a tanto perigo,

porque ia co’as costas quentes.

As mais sobre o seu palmilho

como iam com tanto ardil,

cuidei, que eram de Madril,

onde há festa do trapilho:

eu nunca me maravilho

de ver, que Moças honradas

vão a pé grandes jornadas:

porém, maravilha encerra,

que as Mulatas desta terra

andam sempre cavalgadas.

Bem fez o vosso Mandu

dar-vos lugar consoante,

pois levando as mais diante,

vos pôs atrás do seu cu:

da Bahia até o Cairu

não vi justiça fazer

tão razoada a meu ver,

e portanto creio eu,

que quem hoje o cu vos deu,

vos mande amanhã beber.

Vós me destes grande abalo,

quando nas ancas vos vi,

porque cegamente cri,

que éreis rabo do cavalo:

olhei com mais intervalo,

e com vista menos presta:

então pus a mão na testa,

vendo, que se pelo cabo

não éreis da besta o rabo,

íeis por rabo da besta.

Deixai esse amigo imundos

porque vi grandes apostas,

que quem assim vos deu costas,

tem dado as costas ao mundo:

tomai um rapaz jucundo,

mundano, e não abestruz,

que receio, que os Mundus,

que são, os com quem falais,

hão de dizer, que lhe andais

atrás sempre dos seus cus.

Deixai essas galhofinhas,

e retirai-vos de ambófias,

que isto de andar em bazófias

é mui próprio de putinhas:

cosei em casa as bainhas,

fazei costuras, e rendas,

que mulheres de altas prendas

tratam só do seu remendo:

isto só vos encomendo,

senão: minhas encomendas.