A HUMA MULHER QUE SE BORROU, ESTANDO NA IGREJA EM QUINTA FEIRA DE ENDOENÇAS.
Diz, que a mulher da buzeira
na Cachoeira nasceu,
e assim quando a dor lhe deu,
vazou como cachoeira:
mas a gente, a quem mal cheira
a cebolinha cecém,
disse, que era de Siquém,
e outra ali se confrangia
ou judia ou não judia
não me cheira a mulher bem.
Como havia de cheirar
a fêmea em pressa tão alta,
se a cachoeira lhe falta,
para haver de se lavar;
mas logo mandou levar
por uma negra Xarifa
a alcatifa tão patifa,
que eu ouvi pelos carrilhos,
que a mulher cagou cadilhos,
que lá iam na alcatifa.
Estavam ao redor dela
umas Mocinhas garridas
de nós todos conhecidas
por vista, e por parentela:
deram-lhe tão grande trela
à pobrete da coitada,
que disse uma camarada,
era bem mais evidente
ser limpa, e viver doente,
que suja, e ficar purgada.
Ergueu-se a triste Senhora,
e outra amiga lhe gritou,
inda agora se purgou,
já sai pela porta fora?
sim Senhora: morra embora,
e seja do vento grimpa
u’a mulher, que se alimpa,
e entre gente tão honrada
não lhe basta estar purgada,
para se crer, que está limpa.
Que fora, se hoje jantara!
ontem ceei parcamente;
não vi coisa mais corrente,
que feijões da Pericoara:
se meu amigo cheirara
este desar da buzeira,
corre risco, não me queira,
como é todo um arminho,
há de fazer-me focinho,
como à coisa, que mal cheira.
Pô diabo, há de dizer,
sem ser diabo, nem pó:
bebi o caldinho só,
e o feijão não quis comer:
que lhe havia eu de fazer,
se o caldo era solutivo,
e no corpo semivivo
sem ter puxo, nem repuxo,
antes de eu tomar o puxo,
se saiu de seu motivo.
Eu nunca o caldo sentira
sair-me pelo franjido,
a não ter outro sentido
no nariz, que mo advertira:
então vi, que se saíra,
e temendo outra jornada
(semelhante cavalgada
não houve daqui ao Cairu)
não pude enfrear o cu,
e a fralda ficou selada.
Algum meu apaixonado
a gritos de aqui-d’El-Rei
afirma que eu não caguei,
e cuida, que o tem provado:
meu amigo está empenhado
em fazer esta pesquisa,
e como é coisa precisa
por sua honra defendê-lo,
porá na matéria o selo,
e eu lhe darei na camisa.
A ocasião foi temerária,
e na Igreja, onde assistia,
não faria valentia,
mas fiz coisa necessária:
a dor foi extraordinária,
é, que neste desconcerto,
é, que neste desacerto,
e em tão grande desalinho
um humor tão delgadinho
me pusesse em tal aperto.
Era água simples de cubos
a caca dos meus calções,
com que entendam, que os feijões
não tinham dez réis de adubos:
não fedem pubas, nem pubos,
o que fedia o meu rabo:
foi caçoula do diabo,
quanto me cheirava a caca,
depois fui Jaratacaca,
tresandava pelo rabo.
Fui-me logo para o mangue
co’a fralda disciplinante
molhada atrás, e adiante,
muita caca, e pouco sangue:
com medo, que se remangue
meu amigo contra mim,
borrada fiquei assim,
porque quando ele se segue,
e algum bofetão me pregue,
eu lhe apregue o fraldelim.
Se do dia de Endoenças
a própria Etimologia
são andanças do tal dia,
para mim foram correnças:
por evitar desavenças
não irei mais aos sermões,
onde há tantos empuxões,
onde me agoniam Evas,
onde os Frades dão as trevas,
e me fazem dar trovões.