A HUMA MULHER QUE SE BORROU, ESTANDO NA IGREJA EM QUINTA FEIRA DE ENDOENÇAS.

By Gregório de Matos Guerra

Diz, que a mulher da buzeira

na Cachoeira nasceu,

e assim quando a dor lhe deu,

vazou como cachoeira:

mas a gente, a quem mal cheira

a cebolinha cecém,

disse, que era de Siquém,

e outra ali se confrangia

ou judia ou não judia

não me cheira a mulher bem.

Como havia de cheirar

a fêmea em pressa tão alta,

se a cachoeira lhe falta,

para haver de se lavar;

mas logo mandou levar

por uma negra Xarifa

a alcatifa tão patifa,

que eu ouvi pelos carrilhos,

que a mulher cagou cadilhos,

que lá iam na alcatifa.

Estavam ao redor dela

umas Mocinhas garridas

de nós todos conhecidas

por vista, e por parentela:

deram-lhe tão grande trela

à pobrete da coitada,

que disse uma camarada,

era bem mais evidente

ser limpa, e viver doente,

que suja, e ficar purgada.

Ergueu-se a triste Senhora,

e outra amiga lhe gritou,

inda agora se purgou,

já sai pela porta fora?

sim Senhora: morra embora,

e seja do vento grimpa

u’a mulher, que se alimpa,

e entre gente tão honrada

não lhe basta estar purgada,

para se crer, que está limpa.

Que fora, se hoje jantara!

ontem ceei parcamente;

não vi coisa mais corrente,

que feijões da Pericoara:

se meu amigo cheirara

este desar da buzeira,

corre risco, não me queira,

como é todo um arminho,

há de fazer-me focinho,

como à coisa, que mal cheira.

Pô diabo, há de dizer,

sem ser diabo, nem pó:

bebi o caldinho só,

e o feijão não quis comer:

que lhe havia eu de fazer,

se o caldo era solutivo,

e no corpo semivivo

sem ter puxo, nem repuxo,

antes de eu tomar o puxo,

se saiu de seu motivo.

Eu nunca o caldo sentira

sair-me pelo franjido,

a não ter outro sentido

no nariz, que mo advertira:

então vi, que se saíra,

e temendo outra jornada

(semelhante cavalgada

não houve daqui ao Cairu)

não pude enfrear o cu,

e a fralda ficou selada.

Algum meu apaixonado

a gritos de aqui-d’El-Rei

afirma que eu não caguei,

e cuida, que o tem provado:

meu amigo está empenhado

em fazer esta pesquisa,

e como é coisa precisa

por sua honra defendê-lo,

porá na matéria o selo,

e eu lhe darei na camisa.

A ocasião foi temerária,

e na Igreja, onde assistia,

não faria valentia,

mas fiz coisa necessária:

a dor foi extraordinária,

é, que neste desconcerto,

é, que neste desacerto,

e em tão grande desalinho

um humor tão delgadinho

me pusesse em tal aperto.

Era água simples de cubos

a caca dos meus calções,

com que entendam, que os feijões

não tinham dez réis de adubos:

não fedem pubas, nem pubos,

o que fedia o meu rabo:

foi caçoula do diabo,

quanto me cheirava a caca,

depois fui Jaratacaca,

tresandava pelo rabo.

Fui-me logo para o mangue

co’a fralda disciplinante

molhada atrás, e adiante,

muita caca, e pouco sangue:

com medo, que se remangue

meu amigo contra mim,

borrada fiquei assim,

porque quando ele se segue,

e algum bofetão me pregue,

eu lhe apregue o fraldelim.

Se do dia de Endoenças

a própria Etimologia

são andanças do tal dia,

para mim foram correnças:

por evitar desavenças

não irei mais aos sermões,

onde há tantos empuxões,

onde me agoniam Evas,

onde os Frades dão as trevas,

e me fazem dar trovões.