A HUMA NEGRA CHAMADA EVA RECOLHIDA DE HUM CLERIGO EM MARÉ, QUE ENGANOU AO POETA ...

By Gregório de Matos Guerra

Não me maravilha não

que a matar-me se me atreva

uma Eva, pois outra Eva

já fez pecar outro Adão:

nem é para admiração,

que quem com lindeza muita

tanto alvedrio desfruita,

o meu desfruitar intente,

nem que com fruita me tente,

sendo eu amigo da fruita.

Eu me vejo embaraçado

no meio, que hei de tomar,

tudo há de vir a parar

em deixar-me ela esquentado:

darei em desesperado,

irei um dia enforcar-me

com ela, por não matar-me,

e ao faltar soga d’El-Rei,

algum pêlo lhe acharei,

em que possa espernegar-me.

Pois me deu palavra, e mão,

creio, que não mentirá,

senão novo não será,

que uma Eva engane a Adão:

alguma serpe, ou dragão

anda por esse pomar,

que veio a Eva enganar,

para ela enganar-me a mim,

coma eu da fruita enfim,

peque embora quem pecar.

E se o Padre chamar,

que venha estar em juízo,

direi com todo o meu siso,

Senhor, são erros de amar:

esta Eva, ou este azar,

que me destes por mulher,

diz, que Deus havia ser,

quem do seu pomo comesse,

e eu porque Deus parecesse,

co Demo me fui meter.

Bem sei eu, que era impossível

ser Deus, e fazer pecado,

mas a serpe me há enganado,

ou Eva, que é mais terrível:

esta carne tão sensível,

tão fraca, e tão miseranda

pelo perdão vos demanda:

indulto, indulto, Senhor,

que um preso preso de amor

em artos infernos anda.

E pois me diz, que serei

o Deus da sua vontade,

ou me fale, ou não verdade

da fruita lhe provarei:

inda que então me verei

dos pés até à carantonha

despido, e cheio de ronha,

posto em tamanha lazeira,

folhas dera-me a figueira

para cobrir a vergonha.

Se fora do Paraíso

derem comigo em alberca,

como a tal Eva não perca,

vai pouco, em que perca o siso:

basta, que um Anjo Narciso

se não ponha por meu mal

na porta do terreal,

para a entrada defender,

que eu não mereço Anjos ver

estando em culpa mortal.

E se sobre este desgosto

tiver por condenação,

que vá comer o meu pão

com o suor do meu rosto:

tudo levarei com gosto

por uma Eva tão bela,

tão guardada tão donzela,

que claro está, hei de andar

eu, e ela a trabalhar,

pois hei de trabalhar nela.

Em vez de belota má,

que comeram nossos Pais,

teremos melões reais,

que é belota de cá:

cavando aqui, e acolá,

nos verão todos os dias

comer ricas melancias;

inda que seja o bocado

tão trabalhado, e suado,

mais val suor, que sangrias.

Eva falta, e Eva mente,

e tem-me enganado enfim,

com que a Eva para mim

é pior, que uma serpente:

a serpente incontinenti

deixou-a Deus condenada,

que andasse sempre arreitada

co’a barriga para o chão,

e eu ponho a Eva a pensão,

que ande de costas virada.

Se ela de costas andara,

à fé, que eu a impingira,

à fé, que não me mentira,

nem agora eu me queixara:

se ela me não enganara,

não dera as minhas propostas

respostadas por respostas:

andara, qual sempre andou,

mas pois Eva me enganou

mando, que ande Eva de costas.