A HUMA NEGRA QUE TINHA FAMA DE FEYTICEIRA CHAMADA LUIZA DA PRIMA.
Dizem, Luíza da Prima,
que sois puta feiticeira,
no de puta derradeira,
no de feiticeira prima:
grandemente me lastima,
que troqueis as primazias
a lundus, e a putarias,
sendo-vos melhor ficar
puta em primeiro lugar,
em último as bruxarias.
Mas é certo, e sem disputa,
que isso faz a idéia vossa,
pois para bruxa sois moça,
e sois velha para puta:
que os anos vos computa
e a idade vos arrima,
esse a fazer vos anima
pela conta verdadeira
no de puta derradeira,
no de feiticeira prima.
Esta é forçosa ocasião,
de que o Cação vos passeie,
porque é força que macheie
um cação a outro cação:
enquanto a fornicação
o fazeis naturalmente,
e quanto o enjeitar a gente
é tanto, o artifício, e tal,
que exercendo o natural,
obrais endiabradamente.
Isto suposto, Luizica,
vos digo todo medroso,
que deve ser valeroso
o homem, que vos fornica;
porque se vos comunica
toda a noite com sojornos
o demo dos caldos mornos
com seu priapo à faísca,
à fé que a muito se arrisca,
quem põe ao Diabo cornos.
Dormi c’o diabo à destra,
e fazei-lhe o rebolado,
porque o mestre do pecado
também quer a puta mestra:
e se na torpe palestra
tiveres algum desar,
não tendes, que reparar,
que o Diabo, quando emboca,
nunca dá a beijar a boca,
e no cu o heis de beijar.
Se foi vaso de eleição
São Paulo a passos contados,
vós pelos vossos pecados
sois vaso de perdição:
toda a praga, e maldição
no vosso vaso há de entrar,
e a tal termo há de chegar
esse vaso sempiterno,
que há de ser da vida inferno
onde as porras vão parar.