A HUMA NEGRA QUE TINHA FAMA DE FEYTICEIRA CHAMADA LUIZA DA PRIMA.

By Gregório de Matos Guerra

Dizem, Luíza da Prima,

que sois puta feiticeira,

no de puta derradeira,

no de feiticeira prima:

grandemente me lastima,

que troqueis as primazias

a lundus, e a putarias,

sendo-vos melhor ficar

puta em primeiro lugar,

em último as bruxarias.

Mas é certo, e sem disputa,

que isso faz a idéia vossa,

pois para bruxa sois moça,

e sois velha para puta:

que os anos vos computa

e a idade vos arrima,

esse a fazer vos anima

pela conta verdadeira

no de puta derradeira,

no de feiticeira prima.

Esta é forçosa ocasião,

de que o Cação vos passeie,

porque é força que macheie

um cação a outro cação:

enquanto a fornicação

o fazeis naturalmente,

e quanto o enjeitar a gente

é tanto, o artifício, e tal,

que exercendo o natural,

obrais endiabradamente.

Isto suposto, Luizica,

vos digo todo medroso,

que deve ser valeroso

o homem, que vos fornica;

porque se vos comunica

toda a noite com sojornos

o demo dos caldos mornos

com seu priapo à faísca,

à fé que a muito se arrisca,

quem põe ao Diabo cornos.

Dormi c’o diabo à destra,

e fazei-lhe o rebolado,

porque o mestre do pecado

também quer a puta mestra:

e se na torpe palestra

tiveres algum desar,

não tendes, que reparar,

que o Diabo, quando emboca,

nunca dá a beijar a boca,

e no cu o heis de beijar.

Se foi vaso de eleição

São Paulo a passos contados,

vós pelos vossos pecados

sois vaso de perdição:

toda a praga, e maldição

no vosso vaso há de entrar,

e a tal termo há de chegar

esse vaso sempiterno,

que há de ser da vida inferno

onde as porras vão parar.