A HUMA PENDENCIA QUE TIVERAM DOUS AMANTES A VISTA DA DAMA JUNTO AO CONVENTO DE S...
Dizem, que muito elevado
um amante se ostentava,
quando se considerava
ver-se de uma Flor amado:
eis que chega um disfarçado
com passo tão desumano,
ferra a gávea, larga o pano,
vem chegando sorrateiro,
vai-se ao patacho veleiro,
emprega nele seu dano.
Pego na escota co’a mão,
e bem fora de notar,
que na mão quis demostrar,
o quanto deve ao Sansão:
correu, é clara questão
este Adônis desdichado
e vendo o Sansão deixado
o posto, se retirou,
quando Sansão golpeou
o dedo do assinalado.
E vendo-se desta sorte
ferido o triste Zagal
não pôde executar mal,
porque teme o triste a morte:
chegando então Pedro forte
deixa o capote sem tento,
corre à popa sem ter vento,
porque no porto, claro é,
que lhe ficava um guiné
carregando mantimento.
Perico então se prepara
com pedras, que já trazia,
e cuidando o estendia,
ao Sansão pedras dispara:
as pedras Sansão repara,
e delas sendo livrado
em ira, e raiva abrasado
vem co’a espada o criolete
rompe-lhe o casco ao casquete,
rompe o frisão ao frisado.
O Adônis, que no seu posto
deixou vigia de espaço
correu com grande trespasso,
e co’a vergonha no rosto:
o guiné com seu desgosto
vendo-se tão assombrado,
das pedras desamparado,
e o companheiro ferido
mostra estar arrependido
por se ver bem castigado.
Já perdido, e envergonhado
corre com tal ligeireza
dizendo, que com presteza
ia buscar o traçado:
porém bem considerado
era medo tudo isto,
porque a morte tinha visto
naquela espada tão feia,
cuidando por não ter ceia,
iria cear com Cristo.
Chega à casa o beberrica,
e com a espada se amaina,
lança mão da tarantaina,
para espeto cousa rica:
estava em casa Joanica,
e vendo-o isto fazer
lhe diz, tu podes morrer,
meu bem, com essa ferida,
e sem ti, que és minha vida,
como poderei viver?
Porém Pedro resoluto
não ouviu rogos de Joana,
porque com raiva inumana
saiu como um forte bruto:
o Sansão como era astuto,
foi-se sem ver o tal Cão,
e Pedro como asneirão
o que quer põe-se a dizer,
que um Sansão era em poder,
Pedro no ralho um Sansão.
O Adônis como temia,
se pôs de largo a escutar,
e se vamos a falar,
do canto fez a vigia:
e sem saber quem seria,
se ocultou, e claro é,
que não chegava, porque
o tal vulto ali estava,
e de muito não fiava
o primor do seu Guiné.
A Vênus, que da janela
tinha tudo bem notado
chorava o seu desgraçado
por largar aos pés a vela:
com pesares se arrepela
chora, geme, e se entristece,
e quanto mais se enfraquece
com dores pelo galante,
então deveras amante
com acidentes fenece.
Mas ao depois conhecendo
o Adônis o seu Guiné
em fé, que Sansão não é,
chega-se a ele, dizendo:
meu amigo, estou tremendo,
de Sansão estou ferido
de forças enfraquecido,
pois escapei-lhe fugindo,
e inda agora estou sentindo
daqui o ficar despido.
Careci de língua, e voz
para o caso referir,
que sendo digno de rir,
foi caso tremendo, e atroz:
porém peço, que entre nós
este sucesso feneça,
pois não quero se entristeça
a Dama com tais abalos
pois fizeram três cavalos
o seu jogo de trapeça.