A HUMA PENDENCIA QUE TIVERAM DOUS AMANTES A VISTA DA DAMA JUNTO AO CONVENTO DE S...

By Gregório de Matos Guerra

Dizem, que muito elevado

um amante se ostentava,

quando se considerava

ver-se de uma Flor amado:

eis que chega um disfarçado

com passo tão desumano,

ferra a gávea, larga o pano,

vem chegando sorrateiro,

vai-se ao patacho veleiro,

emprega nele seu dano.

Pego na escota co’a mão,

e bem fora de notar,

que na mão quis demostrar,

o quanto deve ao Sansão:

correu, é clara questão

este Adônis desdichado

e vendo o Sansão deixado

o posto, se retirou,

quando Sansão golpeou

o dedo do assinalado.

E vendo-se desta sorte

ferido o triste Zagal

não pôde executar mal,

porque teme o triste a morte:

chegando então Pedro forte

deixa o capote sem tento,

corre à popa sem ter vento,

porque no porto, claro é,

que lhe ficava um guiné

carregando mantimento.

Perico então se prepara

com pedras, que já trazia,

e cuidando o estendia,

ao Sansão pedras dispara:

as pedras Sansão repara,

e delas sendo livrado

em ira, e raiva abrasado

vem co’a espada o criolete

rompe-lhe o casco ao casquete,

rompe o frisão ao frisado.

O Adônis, que no seu posto

deixou vigia de espaço

correu com grande trespasso,

e co’a vergonha no rosto:

o guiné com seu desgosto

vendo-se tão assombrado,

das pedras desamparado,

e o companheiro ferido

mostra estar arrependido

por se ver bem castigado.

Já perdido, e envergonhado

corre com tal ligeireza

dizendo, que com presteza

ia buscar o traçado:

porém bem considerado

era medo tudo isto,

porque a morte tinha visto

naquela espada tão feia,

cuidando por não ter ceia,

iria cear com Cristo.

Chega à casa o beberrica,

e com a espada se amaina,

lança mão da tarantaina,

para espeto cousa rica:

estava em casa Joanica,

e vendo-o isto fazer

lhe diz, tu podes morrer,

meu bem, com essa ferida,

e sem ti, que és minha vida,

como poderei viver?

Porém Pedro resoluto

não ouviu rogos de Joana,

porque com raiva inumana

saiu como um forte bruto:

o Sansão como era astuto,

foi-se sem ver o tal Cão,

e Pedro como asneirão

o que quer põe-se a dizer,

que um Sansão era em poder,

Pedro no ralho um Sansão.

O Adônis como temia,

se pôs de largo a escutar,

e se vamos a falar,

do canto fez a vigia:

e sem saber quem seria,

se ocultou, e claro é,

que não chegava, porque

o tal vulto ali estava,

e de muito não fiava

o primor do seu Guiné.

A Vênus, que da janela

tinha tudo bem notado

chorava o seu desgraçado

por largar aos pés a vela:

com pesares se arrepela

chora, geme, e se entristece,

e quanto mais se enfraquece

com dores pelo galante,

então deveras amante

com acidentes fenece.

Mas ao depois conhecendo

o Adônis o seu Guiné

em fé, que Sansão não é,

chega-se a ele, dizendo:

meu amigo, estou tremendo,

de Sansão estou ferido

de forças enfraquecido,

pois escapei-lhe fugindo,

e inda agora estou sentindo

daqui o ficar despido.

Careci de língua, e voz

para o caso referir,

que sendo digno de rir,

foi caso tremendo, e atroz:

porém peço, que entre nós

este sucesso feneça,

pois não quero se entristeça

a Dama com tais abalos

pois fizeram três cavalos

o seu jogo de trapeça.